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Piggyback

um argumento de
Vincent Gallagher
ilustrado por
Rosário Pinheiro

Entre rotinas, silêncio e um corpo que pesa, Sally aprende que o luto não se ultrapassa, transforma-se.

1. INT. APARTAMENTO – DIA
Plano fechado de um puxador de porta. Uma mão hesita.

 

SALLY (V.O.)
No início… é como se estivesses
debaixo de água. Atravessas os
dias, mas nada te toca realmente.

 

A mão hesita, aproxima-se do puxador.

 

CUT TO:

TÍTULO: PIGGYBACK

 

2. INT. SALA DE APOIO AO LUTO – NOITE
Um círculo de cadeiras. Luzes fluorescentes zumbem sobre uma sala modesta de centro comunitário. Numa mesa pequena, chá e bolachas intocados.
Uma MULHER de meia-idade (50s) fala suavemente ao grupo, a voz carregada de dor.

 

MULHER
Ainda sinto que ela vai entrar
por aquela porta. Como se, a
qualquer segundo, ela fosse
aparecer… e eu me risse por
alguma vez ter duvidado.

 

Alguns acenos silenciosos. Um silêncio respeitoso.
A CÂMARA MOVE-SE até SALLY (30s), pálida, retraída. Olha fixamente para o tapete, a boca entreaberta, como se ali tivessem vivido palavras.
Depois — PLANO MAIS ABERTO.
Vemos MARCUS (30s), o seu noivo falecido, agarrado às suas costas. As pernas à volta da cintura, os braços sobre os ombros. Expressão vazia. Não é fantasmagórico. Nem etéreo. Apenas está ali.
Mais ninguém repara. Ninguém reage.
Sally ajusta-se ligeiramente sob o peso. Expira, quase inaudível, como se fosse o único fôlego que se pode permitir.

 

LÍDER DO GRUPO (O.S.)
Sally, queres partilhar
alguma coisa hoje?

 

SALLY
(depois de uma pausa, suavemente)
Não. Hoje não.

 

Marcus não se mexe. Não fala. Mas o peso é inegável.

MATCH CUT TO:

3. INT. APARTAMENTO DE SALLY – NOITE
A porta da frente range ao abrir.
Sally entra com um saco de compras nos braços. Marcus continua agarrado às suas costas, como um casaco velho que não consegue tirar. Move-se com esforço treinado — não elegante, mas habituado.
Fecha a porta com o pé. O saco escorrega. Algumas maçãs caem e rolam pelo chão. Ela não as apanha.
O apartamento está desarrumado: caixas meio feitas, uma bicicleta coberta de pó encostada à parede. Fotografias de Sally e Marcus a caminhar na serra, penduradas. Uma moldura está virada para baixo.
Sally pousa as compras, as chaves, o telemóvel. Marcus permanece.
Ela reproduz uma mensagem de voz em alta-voz enquanto arruma.

 

DONNA (V.O.)
Olá, sou eu. O aniversário
é para a semana… Eu sei que é
difícil, mas era o que ele queria.
Nós vamos estar lá. Espero que
tu também.

 

Sally não responde. Aproxima-se de um terrário no canto e tira uma folha de alface do saco.
Ajoelha-se e deixa-a cair lá dentro. Um pequeno cágado, LEO, aproxima-se lentamente.

 

SALLY
Toda a gente segue
em frente, não é?

 

Observa-o a mastigar.
Atrás dela, Marcus continua agarrado. O queixo pousado no seu ombro. Ela olha de relance para ele — ele não corresponde.
Apaga a luz.

CUT TO:

4. INT. QUARTO DE SALLY – MANHÃ CEDO
Luz azulada entra pelas cortinas. O quarto está imóvel.
Sally está deitada de lado, olhos abertos. Acordada, mas imóvel.
A câmara afasta-se.
Vemos Marcus enrolado à sua volta, colado como um amante, mas com os olhos vazios, distantes.
Ela fica ali, presa entre a memória e o luto.

 

5. INT. CASA DE BANHO – MANHÃ
Sally lava os dentes. Marcus continua agarrado, a cabeça tombada sobre o seu ombro como uma criança adormecida.
Ela inclina-se para cuspir, desequilibrada pelo peso. A água salpica-lhe a camisola. Não reage.

 

6. INT. COZINHA – MOMENTOS DEPOIS
Sally come cereais ao balcão. Marcus inclina-se para a frente, braços frouxamente em volta dos ombros dela. A mão que segura a colher treme ligeiramente, mas ela continua a comer.

 

7. INT. ELEVADOR – MAIS TARDE
O elevador range. Sally permanece imóvel, olhar fixo. Dois VIZINHOS (40s, com auriculares) estão ao lado, completamente alheios a Marcus pendurado nela como uma mochila humana.

 

VIZINHO 1
Vais ao churrasco do prédio
este fim-de-semana?

 

VIZINHO 2
Nah. Demasiados pais com ukuleles.

 

Sally não diz nada. O elevador apita.

 

8. EXT. RUA DA CIDADE – MANHÃ
Sally caminha até à paragem do autocarro, Marcus ainda agarrado a ela. O peso fá-la coxear ligeiramente, mas continua. As pessoas passam. Ela não repara nelas. A sua sombra alonga‑se e a de Marcus funde-se com a dela.

 

9. INT. AUTOCARRO – MINUTOS DEPOIS
Sally senta-se atrás. Uma MÃE entra com um BEBÉ preso ao peito. A criança balbucia.
Sally observa o bebé, o rosto suaviza-se.
Ajusta Marcus nas costas, reposicionando-lhe os braços com cuidado. É um gesto tão instintivo que parece inconsciente.

 

10. INT. CAFÉ – DIA
Sally atrás do balcão, avental posto. Marcus ainda às costas.
Prepara bebidas mecanicamente. Uma CLIENTE fala animadamente.

 

CLIENTE
E depois ela disse:
“Isso não é leite de aveia!”
Quase morri.

 

SALLY
(monótona)
Latte médio, extra quente?

 

A cliente leva a bebida e sai.
Sally vira-se para a máquina de café. As costas arqueiam ligeiramente. O peso começa a notar-se.
Ela expira. Longa e silenciosamente. E continua a trabalhar.

CUT TO:

11. INT. APARTAMENTO DE SALLY – NOITE
A porta abre-se com um clique.
Sally entra, exausta. Marcus continua ali. Ela larga a mala, tira os sapatos sem os desapertar.
Vai até ao terrário e rasga automaticamente um pedaço de alface.

 

SALLY
Está bem, Leo, jantar ti—
(pára)

 

Fica a olhar.
O terrário está vazio. Não há tartaruga.

 

SALLY (CONT.)
…Leo?

 

O corpo dela fica tenso. Olha atrás do terrário. Nada.

 

12. INT. APARTAMENTO – MOMENTOS DEPOIS
Caos.
Sally revira o apartamento, procura debaixo do sofá, atrás do radiador, dentro dos sapatos.

 

SALLY
Leo? Vá lá, amigo. A sério?

 

Cai de joelhos e força-se a olhar debaixo do sofá — doloroso com Marcus ainda agarrado.
Geme de esforço, mas faz todos os movimentos necessários.
Nada.
Uma BATIDA à porta. Ela congela.

 

DONNA (O.S.)
Sally? Sou eu.

 

A porta abre-se. DONNA (30s), calorosa mas cautelosa. Segura uma caixa de cartão e umas chaves.

 

DONNA
Olá.

 

SALLY
Ele desapareceu.

 

DONNA
O quê?

 

SALLY
O Leo. Já não está no terrário.

 

Donna pousa a caixa, olha em volta.

 

DONNA
Ele foge sempre. É o que ele faz.

 

SALLY
Pois, está bem. Mas eu já
procurei em todo o lado.

 

DONNA
Devias estar a arrumar.

 

SALLY
Não posso sair sem o encontrar.

 

DONNA
Sally…

 

Suspira. O tom suaviza, mas há tensão.

 

DONNA (CONT.)
Foi uma piada parva do meu irmão.
Trouxe-o porque achou graça.

 

SALLY
(franca)
Porque eu demoro demasiado
a ficar pronta?

 

DONNA
“Pelo menos uma tartaruga acaba
por se mexer”, disse ele.
Achou-se hilariante.

 

SALLY
Não foi.

 

DONNA
(sorri de lado)
Era um idiota.

 

Partilham um sorriso frágil.

 

DONNA (CONT.)
Trouxe mais caixas.
Se quiseres.

 

SALLY
Não posso empacotar
sem o encontrar.

 

DONNA
(suave)
Sabes que ele não significa
nada, certo?

 

Sally não responde. Senta-se lentamente. Marcus pesa ainda mais.

 

DONNA (CONT.)
Não tens de fazer isto sozinha, Sal.

 

Silêncio. Donna observa-a, depois sai em silêncio.
Sally fica sozinha. Olha para o terrário vazio.
Marcus mexe-se ligeiramente — um lembrete.

CUT TO:

13. INT. CAFÉ – DIA
Sally cola um cartaz tosco na montra: PROCURA-SE TARTARUGA — uma foto desfocada do Leo a meio de uma escapadela.
Fica a olhar para ele. Alisa as bordas, hesitante. As suas mãos permanecem ali, hesitantes em largar.

 

14. EXT. RUA DA CIDADE – MAIS TARDE
Sally avança ao longo de uma fila de candeeiros e vedações, colando cartazes.
Marcus agarra-se às costas. O peso é visível agora. Os ombros caídos. Passos lentos.
Encosta-se a um poste, ofegante.

 

15. EXT. BANCO DE PARQUE – MINUTOS DEPOIS
Sally senta-se, exausta. Inclina-se para aliviar o peso, mas os braços de Marcus apertam ainda mais.
A poucos metros, um HOMEM (40s) desmonta uma tenda de campismo. Coloca uma mochila enorme às costas.
Ele pára, cruza o olhar com o de Sally.
Um instante. Um reconhecimento silencioso.
Ele acena ligeiramente e vai-se embora.
Sally observa-o, algo suaviza dentro dela.
O telemóvel vibra.

INSERT – MENSAGEM DE DONNA:
“O tempo está bom. Vamos estar todos lá. Espero que tu também.”
Sally lê. Não responde.
Marcus pesa mais nas suas costas.

 

SALLY
(baixinho)
Estou a tentar.

 

Guarda o telemóvel. Observa um bando de pássaros levantar voo.

CUT TO:

16. INT. SALA DE APOIO AO LUTO – NOITE
O círculo novamente. As mesmas cadeiras. As mesmas luzes.
Sally senta-se no mesmo lugar. Marcus pesa-lhe nas costas, os braços rígidos, apertados.
Outra MULHER (40s, incisiva, frágil), fala com raiva contida.

 

MULHER
Sabem o que me enfurece?
Ele afastou-me. Até no fim.
Como se eu não fosse forte
o suficiente para lidar com tudo.

 

Silêncio. Alguns acenam. Outros não.

 

MULHER (CONT.)
E continuo a perguntar-me…
qual é o sentido de amar
alguém assim, se tudo o que
fazem é deixar-te sozinha?

 

Marcus aperta-se contra Sally. A respiração dela falha.

 

LÍDER DO GRUPO
Isso soa incrivelmente doloroso.
Obrigada por partilhar.

 

Olha para Sally.

 

LÍDER DO GRUPO (CONT.)
Sally?

 

Uma longa pausa. Sally abre a boca.

 

SALLY
(baixinho)
Acho que não estou zangada.

 

Olha para as mãos… depois para os dedos de Marcus cravados nos seus ombros.

 

SALLY (CONT.)
(baixinho)
Mas talvez esteja.

 

Ninguém responde. Mas sente-se.
Marcus ajusta-se, segura-a com a mesma força. mas a sua postura é mais tensa, quase desesperada.
Sally fecha os olhos.

CUT TO:

17. INT. ÁTRIO DO PRÉDIO – NOITE
Sally entra, exausta. Marcus agarra-se com força. Os seus passos são lentos, pesados.
Carrega no botão do elevador.
Uma luz pisca. Nada. Uma folha colada por cima do painel diz:
“FORA DE SERVIÇO – DESCULPE!”
Ela fica estática a olhar o papel.

 

SALLY
(para si)
Claro.

 

18. INT. ESCADAS – MOMENTOS DEPOIS
Sally começa a subir.
A respiração acelera. Os pés arrastam-se. Os membros de Marcus balançam de um lado para o outro, como um peso morto

3.º ANDAR.
Pára, apoia-se no corrimão.

5.º ANDAR.
Tropeça. Aguenta-se.
O telemóvel VIBRA. Ignora.

7.º ANDAR.
Respiração curta. O peso de Marcus parece pressiona-la cada vez mais a cada degrau.

9.º ANDAR.
Pára. Um longo momento. Olha para cima, só falta um lanço. Depois…
Ela cai de joelhos. As mãos batem no cimento do chão. Ofega, à procura de ar.

 

SALLY
(entre soluços)
Não consigo mais.

 

Chora profunda e inteiramente. Marcus agarra-se como se tivesse medo de ser largado.
O telemóvel vibra novamente. Ela tira-o, devagar, e lê.

INSERT – MENSAGEM:
“Olá! Acho que encontrámos a tua tartaruga. Envio foto já!”
Momentos depois, nova vibração.

INSERT – IMAGEM: Uma MENINA a sorrir, segurando Leo com cuidado.
Sally olha para a imagem. O choro abranda.
Ela levanta a mão e toca na de Marcus, não para o afastar, mas para o reconhecer.

 

SALLY
(sussurrando)
Está bem.

 

Fecha os olhos. Respira.

 

19. EXT. RUA SUBURBANA – DIA
Sally caminha por um passeio tranquilo. Casas simples, bem cuidadas. Aproxima-se de uma casa com um pequeno portão preto. Um HOMEM (40s, olhar cansado, gentil) abre a porta.

 

HOMEM
És a Sally?

 

SALLY
Sim. Tem… o Leo?

 

HOMEM
Entra.

 

20. INT. JARDIM – CONTÍNUO
O homem conduz Sally até ao jardim. Uma MENINA (7) está sentada na relva, com uma piscina insuflável. Leo anda devagar sobre o colo dela.

 

MENINA
Ele não é muito rápido,
mas é esperto.

 

Sally agacha-se, com dificuldade por causa de Marcus.

 

SALLY
Pois… ele é bom a escapar-se.

 

MENINA
(séria)
Acho que ele gostou daqui.
Talvez achasse que eu
precisava mais dele.

 

Sally olha para ela, surpreendida.

 

MENINA (CONT.)
Podes levá-lo… se quiseres.

 

Pausa longa. Sally observa Leo.

 

SALLY
(baixinho)
Não… acho que ele tem razão.

 

A menina sorri.

 

MENINA
Ontem dei-lhe brócolos.
Ele não gostou.

 

SALLY
Pois… ele é esquisito.

 

Sally levanta-se, com um leve gemido devido ao peso de Marcus.

 

SALLY (CONT.)
Tem cuidado. Ele foge
quando não estás a olhar.

 

MENINA
Eu tomo conta dele.

 

Sally sorri. Um sorriso pequeno, mas sincero.

 

21. EXT. RUA SUBURBANA – MOMENTOS DEPOIS
Sally envia uma mensagem a Donna.

INSERT – TEXTO: “Vou estar lá.”
Marcus mexe-se nas costas. Pela primeira vez, os braços afrouxam ligeiramente.
Ela continua a andar.

CUT TO:

22. EXT. INÍCIO DO TRILHO DA MONTANHA – DIA
Sally está no início de um trilho íngreme. Marcus continua agarrado. Uma placa diz: “Miradouro – 2,37 km – Subida Exigente.”
Ela olha para cima. O cume parece impossivelmente distante.
Ajusta-se sob o peso de Marcus. Os braços dele apertam-na como um aloquete. O céu está limpo. Uma brisa sopra pelas árvores.
Ela dá o seu primeiro passo.

 

23. EXT. TRILHO – CONTÍNUO
A inclinação começa logo.
A cada passo, Sally grunhe sob o peso de Marcus. A respiração acelera. Escorrega no piso enlameado. Recupera.
O suor escorrega-lhe pela face.

MONTAGEM – SALLY A SUBIR:
– As botas a arrastar-se na gravilha.
– A cabeça de Marcus pousada no ombro, inerte, como se estivesse inconsciente.
– Os dedos dela a cravar-se nos troncos para subir.
– Ela vomita discretamente atrás de um arbusto.
– Ela continua esforçadamente.

FLASH CUTS – FRAGMENTOS DE MEMÓRIA ENTRE PASSOS:
– Marcus a carregar Sally às costas, ambos a rir no seu antigo apartamento.
– Os dois a subir este mesmo trilho, mais novos, alegres, vivos.
– Os dois de gatas à procura do Leo debaixo do sofá, rindo.
– Marcus a filmá-la enquanto ela sobe ofegante uma colina.

BACK TO:

24. EXT. TRILHO – PERTO DO TOPO – FIM DE TARDE
Sally cai de joelhos. Treme. Lágrimas e suor misturam-se.

 

SALLY
(mal sussurrando)
Eu não consigo…

 

Marcus não responde. Apenas segura com mais força. Ela inspira. Expira. Depois, com tudo o que lhe resta, levanta-se.

 

25. EXT. TOPO DA MONTANHA – PÔR DO SOL
Sally alcança o topo.
Vê-os: Donna e a FAMÍLIA DE MARCUS, em volta de um pequeno memorial — pedras empilhadas, uma fotografia emoldurada.
Eles vêem-na. Donna avança, lágrimas já nos seus olhos.

 

DONNA
(suavemente)
Ainda bem que vieste.

 

O PAI DE MARCUS entrega-lhe uma pequena caixa de madeira.
Ela segura-a. Respira fundo.

 

MARCUS
(terno)
Podes largar agora, Sal.

 

Pela primeira vez, Sally olha verdadeiramente para ele.
Marcus levanta a cabeça. Os olhos encontram-se. Não sorri. Está presente. Carinhoso. Real.
Ela abre a caixa com mãos trémulas.
Cinzas.
Sally aproxima-se da borda. O vento aumenta.
Levanta a caixa e deixa as cinzas voarem.
À medida que se dispersam:
As mãos de Marcus soltam-se.
O peso desvanece.
Ela expira — não é alívio. É tudo.
Uma avalanche de emoções percorre o seu rosto: dor, amor, perda, paz.
Ela observa-o partir com o vento.
CLOSE NO ROSTO DE SALLY — cru, inteiro, presente.

FADE TO:

26. INT. APARTAMENTO DE SALLY – MANHÃ
O espaço está agora vazio. Silencioso. Sally está à porta. A mão próxima do puxador. Respira.

 

SALLY (V.O.)
No início… é como se estivesses
debaixo de água. Atravessas os
dias, mas nada te toca.

 

Sai. Fecha a porta atrás de si.

 

SALLY (V.O.) (CONT.)
Toda a gente fala do tempo.
Da cura. Mas ninguém te diz
que grande parte do luto é…
silêncio.

27. EXT. RUA DA CIDADE – MOMENTOS DEPOIS
Sally caminha com um saco pequeno ao ombro. O sol baixo. Pessoas passam. Agora repara nelas.

 

SALLY (V.O.) (CONT.)
Aprendes a carregar.
A ajustar a postura.
Deixas de sentir tanto o peso.

 

28. EXT. BANCO DE PARQUE – MAIS TARDE
Sally senta-se no mesmo banco de anteriormente. O parque continua vibrante. Mas agora, as suas costas estão direitas, a sua expressão aberta.
Pausa. Olha para baixo.
Leo aproxima-se devagar por debaixo do banco, cauteloso.

 

SALLY (V.O.) (CONT.)
E quando pensas que já passou…
algo volta para te lembrar.

 

Ela sorri — leve, agridoce.
Pega gentilmente no Leo e pousa-o no colo.

 

SALLY (V.O.) (CONT.)
Mas isso não significa
que estejas a recomeçar.

 

O vento muda.
Os dedos repousam suavemente sobre a carapaça de Leo.

 

SALLY (V.O.) (CONT.)
Costumava achar que o luto
era algo que se carregava…

 

29. INT. SALA DE APOIO AO LUTO – NOITE
AS MESMAS PALAVRAS, agora ditas em voz alta.

 

SALLY
Agora… deixo-o caminhar
ao meu lado.

 

Silêncio. O grupo escuta.
Sally levanta o olhar. A voz firme.

 

SALLY (CONT.)
Ele ainda está comigo.
Mas agora consigo andar.
Consigo respirar.

 

CLOSE EM SALLY — não transformada, mas inteira. Presente. Ninguém nas costas.

 

30. EXT. PARQUE – PÔR DO SOL
Sally levanta-se, junta as suas coisas, coloca Leo no chão.
As árvores murmuram. Pausa. Ela observa as outras pessoas no parque — e vê agora: cada uma carrega alguém às costas.
Sally inspira fundo.

 

FADE TO BLACK

VINCENT GALLAGHER

Vincent Gallagher é um cineasta premiado com um IFTA, natural de Dublin, Irlanda. Licenciou-se na National Film School, onde se especializou em realização de drama. As suas curtas-metragens foram exibidas em festivais de prestígio como o TIFF e o Tribeca. Conquistaram mais de 50 prémios internacionais e duas delas foram selecionadas para a longlist dos Óscares. Atualmente, Vincent está a desenvolver a sua primeira longa metragem, ’Sheela’, no âmbito do programa ‘Screen Ireland’s Perspectives’, e é recém-diplomado do curso de Pós-Graduação no ‘Screen Ireland / TUD – Advanced Producers’. Vincent sente-se atraído por histórias ousadas e envolventes que refletem a vida contemporânea de formas inesperadas, impulsionadas por personagens e situações marcantes.

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