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Os Velhos Não Dormem

um argumento de
Duarte Henriques
ilustrado por
Rosário Pinheiro

Duas irmãs cuidam de uma avó que as consome, enquanto o frágil equilíbrio entre elas começa a ceder.

INT. QUARTO – MADRUGADA
As queixas de Maria (87) começam antes sequer da hora do galo, que já não canta, foi canja há muito.
Maria chama por Deus, pela mãe, pelo padre, pela vizinha que sempre detestou, chama por todos menos por quem ficou. Carmo e Ana, as netas.
A luz do quarto acende-se com a chegada de Carmo, a mais velha. As mãos da avó tremem e Carmo já não sabe se é fita ou se é dor verdadeira. Senta-se na borda da cama e dá água à avó.

 

CARMO
(só para si)
Não vejo borboletas.

 

Resigna-se em silêncio.
Ana (29) aparece. Ou digna-se a aparecer, pensa Carmo quando trocam um olhar. O de hoje diz: Não quero conversas. O mesmo de sempre. Como se tivesse sido ensaiado, Ana ajuda Carmo a levantar a avó.
São os suspiros de dor da avó que enchem a casa antiga de campo. Acordam os cães vagabundos da aldeia, tão vazia que foi despromovida a um mero lugar. Ali, o carteiro vai a esforço. O padeiro faz a ronda por favor a um primo e o peixeiro por favor ao padeiro. Só não é o fim do mundo, porque a estrada segue depois da aldeia.

 

INT. COZINHA – DIA
A chaleira grita, o pão é seco e o café cheira a pêlo molhado. Com poucos dentes, Maria só come tudo em papa ou embebido. Ana prepara a tigela do café, para a avó molhar o pão. O silêncio é interrompido pela televisão da cozinha, com o volume no máximo, ou pelas coloridas descrições que Maria faz das suas enfermeiras não pagas.

 

MARIA
Ingratas nojentas. Gordas.
Preguiçosas. Nem para putas servem.

 

Carmo sobrevive em manter-se ocupada, tentando ignorar cada palavra que a avó escolhe a dedo para magoar. Ana conta com os avanços do namorado, que lhe liga assim que ela dá sinais de vida. Entre elas não há conversas, deixam isso para a velha — como cada apelida nas profundezas da sua mente. Naquela prisão há pouco tempo para elas próprias.

 

INT. SALA – DIA
Carmo é a primeira a ficar pronta, nunca se importa se vai bem arranjada. Ana leva o seu tempo, talvez por se ter em melhor conta, talvez para sobrecarregar a irmã, que fica investida em deixar por escrito as indicações para a avó lidar com os comandos da televisão.

 

MARIA
És mesmo estúpida, eu não
vejo nada, diz a velha ao
entrar na pequena sala.

 

Carmo responde virando as costas.

 

INT. CARRINHA – DIA
No alívio da carrinha cinzenta com mais anos que as duas irmãs juntas, seguem para o mercado. A rádio tem um zumbido que já devia ter sido revisto. Funciona minimamente para deixar soar os mais recentes sucessos que nenhuma das duas conhece — e nem sabem se gostam. Quando a vida se torna cuidar de outros, o nós fica esquecido. Ana e Carmo nunca tiveram grande hipótese para conhecer mais do que conhecem. O que conhecem, conhecem bem.

 

INT. BANCADA – DIA
A banca de canto é pequena, fácil de encontrar e sempre cheia. Seja de produto seja de clientela. O foco das irmãs é de legumes por imposição paterna e territorial.
A cortina está levantada, começa a peça.
Dona Carmo e Dona Ana são conhecidas pela sua alegria. Os legumes estão organizados por cor, ramos de salsa e coentros com cheiro intenso e sedutor.

 

CARMO
Olha o legume fresquinho!

 

CLIENTE #1
Carmo, como está a avózinha?

 

CARMO
Como Deus a quer,
teimosa e refilona.

 

A cliente ri e faz o pedido.

 

ANA
O Senhor Teixeira já há
muito que não vinha cá.

 

SENHOR TEIXEIRA
Tenho estado c’aquelas
dores de sempre.

 

ANA
Atão leva aqui umas cenouras
de oferta e ai de si que
não fique melhor!

 

Com um cuidado que não tem em mais nada no mundo, escolhe cenouras que ainda nem estavam expostas.

 

SENHOR TEIXEIRA
Ai a menina Ana, eu
não a mereço, é tão jeitosa.

 

ANA
Diga isso à mana Carmo que
diz que é a mais bonita das duas.

 

SENHOR TEIXEIRA
Não me faça isso, que escolher
entre o sol e a lua é impossível.

 

CARMO
Senhor Teixeira, não fosse
você tão bem casado…

 

A energia é trivial, vulgar e genuína. Ali, longe do carrasco, as irmãs parecem ter enterrado o machado da guerra. O acordo é de paz e recomenda-se. Carmo até se diverte a ler as mãos de alguns clientes habituais, algo que aprendeu com a avó noutros tempos. Atira sempre com mensagens de esperança mesmo quando se assusta com o que lê. A dona Adelaide, que vai todos os dias mais pela conversa do que para preparar o repasto, promete a habitual benzedura para afastar os males da Dona Maria. Carmo desconfia que está a dar resultado.
A banca costuma esvaziar cedo, antes do mercado começar a fechar. Carmo trata do dinheiro, Ana arruma as caixas. Não há debate, foi decidido há anos. A cortina baixou e não há aplausos.

 

INT. CARRO – TARDE
O zumbido do rádio é tal que são forçadas a quebrar essa parte do ritual da viagem. Têm que enfrentar a respiração de cada uma, sem a distração de música genérica. Carmo foca-se na paisagem repetitiva, nas estradas novas de alcatrão que destruíram muros de pedra centenários, no excesso de eucaliptos e nas grandes moradias de pessoas que foram para a cidade e deixaram monos de férias para trás. Ana foca-se nas mensagens de amor do namorado até se fartar e virar a atenção para o vácuo que é o scroll incessante. A leveza do mercado não é real, é teatro ou um simples e se.

 

INT. CASA – NOITE

MARIA
Pensei que fosse o
diabo para me levar.

 

A manta que a cobre é de lã ressequida, a que usa desde que é gente. Carmo aproxima-se e tenta trocar por uma nova, que comprou quando foram à cidade.

 

CARMO
Esta é mais quentinha.

 

Arrisca e procede com cautela. A resposta é imediata.

 

MARIA
Larga-me, vaca.

 

Ana, desperta do telemóvel, acrescenta.

 

ANA
Descanse ‘vó.

 

MARIA
Se me deixarem.

 

INT. COZINHA – NOITE
O céu nublado faz os dias terminarem mais cedo. Carmo reduz-se à cozinha. Encara o trabalho de cozinhar como sempre encarou — com raiva. Cada cebola cortada é terapia, cada pena do pombo desfiada é uma ida ao ginásio. Detesta cada momento. Sempre teve pouco interesse em comer, nem nunca percebeu quem vive para isso. Ter ficado com este papel sem se ter voluntariado é uma tormenta que a persegue. Mas por baixo da injustiça de ter que ser a cozinheira, sabe que a alternativa seria comer estrume.

 

INT. QUARTO – NOITE
Ana no quarto faz a vontade ao namorado: trocam vídeos, vagas promessas de um sexo que ela adia desde que decidiu que já não estariam juntos. A perspectiva de viver com ele na cidade era melhor do que mais dez anos a viver com a avó. E a pressão do namorado estava a aumentar e a tornar-se frequente. Uma casa para os dois, terias um trabalho melhor e teríamos tempo.
Eram pontos válidos. Ana gostava dele, embora o considerasse chato e pouco bonito. Viver a dois, não a três, viver a amor, não a obrigação, era o que ela muitas vezes queria. O querer raramente se alia ao dever.

 

INT. COZINHA – NOITE
Carmo decidiu não passar a sopa. A fé, ela matou quando Deus lhe deu esta vida, o pecado que é triturar canja de pombo é coisa que não desaparece. Se a velha morrer, que morra engasgada, pensou Carmo ao servir uma tigela cheia de pedaços carnudos. A televisão da cozinha já fura os tímpanos e Ana há de aparecer quando tudo estiver feito. Os comprimidos calham à mesma de sempre.

 

CARMO
Este e este.

 

MARIA
Toma-os tu, puta.

 

A resposta de Carmo está na ponta da língua mas não sai. Diplomacia do silêncio, como sempre.

 

MARIA
Vocês querem-me pôr louca.
Tu e a gorda, estão mortinhas
para ficar com tudo o que é
meu. Não vão ter nada. Nada.

 

CARMO
Eu sei, avó.

 

A frase sai-lhe sem corpo, sabe que a ladainha é velha. Senta-se ao lado da avó, que já treme de raiva, por isso não conseguirá comer sozinha.

 

MARIA
Não me dês de comer,
sou muito capaz de
viver sozinha.

 

Atira enquanto espera que a neta a alimente.
Ana chega arrastando os pés e senta-se, reparando que não há sopa na sua tigela. Nem isto é capaz, pensa enquanto lança um olhar desdenhoso à irmã. Levanta-se, pega na concha e serve-se, ruidosa. O seu ataque é ignorado. Carmo está focada na palestra de Maria, calculando as pausas para lhe enfiar o pombo pela goela abaixo.

 

MARIA
Ao menos a tua irmã arranjou
um homem e é gorda. Tu nem
um cão conseguias. Ele fugia
logo ao ver essa cara de merda.

 

Carmo não reage, só que a dormência do seu corpo começa a desaparecer, a anestesia emocional de tantas vezes ouvir o mesmo começa a perder o efeito. Respira fundo. Outra colher na boca da velha. Maria aceita. Engasga-se.
A tosse rompe o ambiente.
Em pânico, Carmo bate-lhe nas costas até a avó cuspir um pedaço de osso, como uma maldição falhada. De vontade a arrependimento, voltará a vontade.

 

MARIA
Vocês querem-me matar,
suas cabras.

 

Maria cospe-se, tosse. Ana não se mexe. Morde a colher, com os olhos no telefone. Para Carmo, é atitude de quem acha que existir basta.
Levanta-se e pega na sua tigela intocada. A mão treme. Vai até ao lavatório. A apatia de Ana irrita-a, a respiração pesada de Maria perturba-a e o som da televisão não é suficiente para a distrair do inferno que é viver ali. A avó continua:

 

MARIA
Se é para me matar, que seja
com uma sopa de jeito.

 

O prato parte-se com força contra a loiça suja. Ana desperta. Maria cala-se por um instante.
Sem esperar reação, Carmo deixa a cozinha e segue para o quarto.

 

MARIA
É bom que limpes isso, puta.

 

INT. CORREDOR – NOITE
Os velhos não dormem, torturam.
Carmo também não consegue dormir. Passa pelo quarto da avó, sempre de porta entreaberta, para certificar-se que está viva. Parece ver borboletas, mas não as vê. Os gemidos de dor soam-lhe a guinchos de porco a ser morto. Não a assustam nem confortam. Desce as escadas até que ouve vozes. Percebe que é Ana e o namorado. Reage com a mesma naturalidade de sempre e vai até à cozinha.

 

INT. COZINHA – NOITE
Tudo por limpar, a cena do crime tal e qual como a deixou.
A porta da rua fecha-se e Ana entra na cozinha. Serve-se de água. Os seus olhares encontram-se, e o que não dizem ecoa mais alto do que tudo o que já disseram. Ana deixa o copo e segue para o quarto. Para Carmo é o sinal.

 

INT. ESCADAS – NOITE
Nas escadas, Carmo agarra o braço de Ana que se vira.
Os olhos de ambas ardem. Ana levanta a mão e dá um estalo seco a Carmo. É forte e com intenção.
Carmo solta o braço. Ana sobe as escadas, Carmo imita-a.
É rápido. É desajeitado. Trocam empurrões, socos, cabelos puxados. Caem pelas escadas. O baque é surdo. Agarradas, entram num confronto violento e mudo. Range a madeira, a casa ouve e calada consente. O ódio é íntimo, antigo e carregado de coisas por dizer. Cansam-se depressa.
Carmo encosta-se à parede e Ana ajeita a camisola.
Sem palavras, fecham-se no quarto.
O fardo de cuidar da avó é mesmo isso, um fardo.
O tempo passa sem se sentir.
O rádio da carrinha continua sem funcionar, a vida no mercado continua ilusória, estar em casa continua a não dar descanso. E os velhos não dormem.

 

EXT. HORTA – TARDE
A horta da casa é mesmo em frente à cozinha. Tem uma janela aos quadrados, de onde se vê o rio, o mato, a teimosa da Maria, que insiste em fazer o que já não é capaz, aproveitando-se das netas estarem no mercado. Usa um chapéu azul de pescador, bata aos quadrados e uma vara de eucalipto como bengala. As suas mãos são robustas e agora não tremem, decididas, enquanto tiram folhas mortas das couves. Maria sempre disse que antes de morrerem, as mulheres da família eram visitadas por borboletas.

 

MARIA
(para si)
A minha mãe viu borboletas,
antes de morrer. É a nossa
senhora a receber-nos no céu.
Eu também vou ver.

 

Hoje não há borboletas. Nem pássaros. Só Maria, sozinha no mundo. E o seu coração parou.

 

HORAS DEPOIS.

 

As irmãs reagiram em silêncio ao encontrarem o corpo tombado da avó. Com a mesma automatização que cuidaram da Maria viva, tomaram as decisões para a Maria morta. Não houve nota de óbito, não houve aviso na Igreja da aldeia. Não houve velório, apenas uma ida ao crematório, onde ficaram as duas, sem o consolo de conhecidos ou de familiares distantes. A morte de Maria ficou segredo de família. Uma mera obrigação legal.

 

INT. CASA – DIA
A casa, por momentos, parece maior. A televisão da cozinha continua ligada, ninguém desligou. O peso desapareceu. O vazio ficou. Ana repara que Carmo está quase em lágrimas. Aproxima-se e toca-lhe no ombro. É um convite.
As palavras estão lá — é só deixá-las sair. O coração de Ana bate violentamente, sem saber que Carmo sente o mesmo. Falta o passo seguinte. Uma palavra.
Só que não chega. E a coragem desvanece. Ana retira a mão, sem ver que os olhos de Carmo, hoje, diziam outra coisa: Falamos depois.

Cada uma vai para o seu quarto.

Amanhã é dia de trabalho.

 

FIM

DUARTE HENRIQUES

Com 32 anos, é licenciado em Ciências da Comunicação e frequenta uma pós-graduação em Ambiente, Sustentabilidade e Educação. Vive para contar histórias, seja no cinema ou na escrita. Em 2022 venceu o Prémio Novos Talentos FNAC com a curta-metragem Chuvas de Março, sobre a Guerra Colonial, e em 2023 integrou a programação do MotelX com A Maldição de Rabo de Peixe. Trabalha como freelancer em edição e realização de vídeo, e colabora como Coordenador de Audiovisuais na Monstra – Festival de Animação de Lisboa.

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