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O Lebzome

um argumento de
Francisco Felicidade
ilustrado por
Rosário Pinheiro

Quando uma criatura infernal ameaça a paz de uma vila transmontana, Pedro é forçado a confrontar a sua relação com o filho.

EXT. SERRA – NOITE
A noite é cerrada na serra transmontana. A luz da lua cheia ilumina os penedos e as brenhas das azinheiras, esbatendo-se nas águas límpidas do rio que corre desafogado pela foresta.

TOMÉ (40), mija com a cabeça encostada a uma árvore. É um homem robusto de cabelo desgrenhado, com vestes simples.

Enquanto uma mão faz mira, outra segura numa garrafa de bagaço. Acabado o serviço, abotoa as calças e mete-se a caminho.

Tomé vagueia pelo bosque, balbuciando uma canção popular. Vai mais um trago, mas a garrafa está vazia. Nada lhe está a correr bem.

Ao deambular pela floresta, Tomé encontra uma gruta. O interior é escuro como breu. Ao redor, restos de conquistas: ossadas de cordeiros, veados, e outras criaturas infelizes adornam a entrada, numa cama de sangue seco.

Um grito prolongado de dor escapa das entranhas da gruta, chegando em forma de eco. O susto faz Tomé tropeçar e cair.

À medida que o tempo passa, o grito torna-se cada vez menos humano, dando lugar a um rugido animalesco, que acorda toda a fauna da floresta.

Tomé, aterrado, levanta-se sem grande jeito e foge na direção oposta.

Algures na serra, uma aldeia dorme, alheia ao terror que habita a floresta.

TÍTULO: O LEBZOME

 

EXT. ADRO DA IGREJA – DIA
A silhueta imponente da igreja destaca-se do resto daquela pacata aldeia. PEDRO (50) é um homem do campo, calejado pelo tempo, com a expressão grave de quem já passou por muitos invernos difíceis. Está especado a olhar para a porta da igreja.

Lá dentro, ouve-se o decorrer da missa. Pedro respira fundo e decide entrar.

 

INT. IGREJA – DIA
Do seu altar, ANTÓNIO (60), de vestes litúrgicas, dá a missa.

Sábio e confiante, as suas palavras fluem com a naturalidade de um crente fervoroso.

 

ANTÓNIO
(em coro com a multidão)
Perdoai as nossas ofensas,
assim como nós perdoamos
a quem nos tem ofendido.

 

Pedro senta-se num banco vazio. Por mais que tente, não passa despercebido. Alguns membros da congregação lançam-lhe olhares, uns surpresos, outros suspeitos.

 

INT. IGREJA – DIA (ALGUNS MOMENTOS MAIS TARDE)
A igreja está vazia. Só restam Pedro e António, agora de batina simples.

 

PEDRO
Pode qualquer alma ser salva?

 

EXT. CAMPO – DIA
Longe da aldeia, Pedro trabalha no seu pequeno terreno agrícola. As suas mãos experientes fazem da enxada uma extensão do seu corpo, lavrando o chão a um ritmo constante, com suor a acumular-se na cara.

Está acompanhado das suas duas filhas: LUÍSA (15) também empunha uma enxada, com muito menos destreza que o pai, enquanto TERESA (11) vai catando ervas.

O trabalho de campo é árduo. Pedro para por uns momentos. Os seus olhos recaem sobre o curral de cordeiros.

 

EXT. CURRAL – DIA
O gado junta-se ao redor de MATIAS (20), de olho no fardo de feno que este carrega. É um jovem esbelto e delgado. Os seus movimentos delicados mostram que ainda é relativamente intocado pelos pesos da vida.

Matias pousa o fardo perto do cocho dos cordeiros e vai abastecendo os animais, que barregam de contentamento.

Findada a tarefa, levanta-se para encher o bebedouro quando ouve uma pancada seca.

Depois outra.

Mais outra.

Mais outra. É o som de madeira a bater em madeira, num ritmo sereno.

Ao sabor do vento, o portão do curral abre e fecha.

Um cordeiro olha para o portão. Matias observa-o com curiosidade.

O cordeiro dá passos tímidos em direção à saída. Matias para o que está a fazer. A passada torna-se mais decidida. Vai olhando para trás, como se procurasse a aprovação do humano no curral. Este limita-se a observar.

O cordeiro dá mais alguns passos, e passa a fronteira do curral. Está do lado de fora. Bale, contente, sempre de olho em Matias.

Antes que o cordeiro se possa habituar à sua nova liberdade, Pedro chega e agarra-o como um saco de batatas.

Pedro dispara um olhar de reprovação ao filho, entra no curral e atira o fugitivo para o chão. O cordeiro, resignado, corre de volta para o rebanho.

 

PEDRO
Matias, sua besta! Não vês
que o gado está a fugir?

 

MATIAS
Desculpe, pai.

 

PEDRO
Faz-te homem e vai
ajudar as tuas irmãs.

 

Matias abandona o curral, enquanto Pedro assume as tarefas do filho.

 

INT. CASA – NOITE
Numa casa rústica, com muitos anos e poucas decorações, os quatro sentam-se para jantar. A refeição é parca: uma sopa de hortaliça e magras fatias de pão. Pedro tem direito a um cálice de vinho.

 

MATIAS
O Alberto veio visitar a aldeia.

 

Silêncio.

 

MATIAS (CONT’D)
Arranjou trabalho numa loja.
O patrão deu-lhe licença para
vir ver os tios.

 

Pedro deixa escapar um riso sardónico.

 

PEDRO
Ele já era um corno emproado.
Os ares da capital só lhe devem
ter feito pior.

 

MATIAS
Diz que tem um quarto livre em
Lisboa, que me conseguia arranjar
qualquer coisa, para eu ir junt-

 

A mesa estremece. Matias tenta manter a compostura.

 

PEDRO
Outra vez esta conversa de merda!
”Arranja-te qualquer coisa”.
Olha que bonito! Se calhar vais
trabalhar na loja dele. Ou talvez
o patrão precise de um criado, um
rapaz do campo para lhe engraxar
os sapatos e limpar-lhe o cu por um
par de escudos.

 

MATIAS
E o que sou eu aqui?

 

PEDRO
O meu filho. Um homem, com deveres,
que não se devia deixar levar por
promessas ocas e contos de fada.

 

MATIAS
Não é “um conto de fadas” querer
algo mais da vida do que plantar
hortaliças até as artroses me
moerem os dedos. O mundo não é s-

 

PEDRO
O mundo?! Que sabes tu sobre o
mundo, moço? És um trasgo birrento
que mal consegue segurar numa enxada.

 

Talvez Matias pensasse que fosse ser diferente. Não vai chorar. As irmãs apoiam-no com olhares solidários.

 

MATIAS
Não há nada para mim aqui.
Só mágoas e um pai casmurro.

 

PEDRO
É uma benção a tua mãe não estar
aqui para te ver. Pôde morrer
descansada sem saber que o seu
filho cresceu torto.

 

É demais. Matias levanta-se de rompante e vai para o quarto.

O jantar prossegue sem ele.

 

EXT. CAMPO – DIA

Um novo dia, a mesma rotina. Pedro vinga-se das mágoas num pedaço de terra especialmente caprichoso de lavrar.

Matias sai de casa. Traz consigo uma trouxa mal amanhada que carrega ao ombro. Caminha, decidido, para longe dali.

Pedro fita Matias por uns momentos, e regressa ao trabalho.

 

PEDRO
Volta para casa.

 

Matias não reage. Segue o seu caminho, tão decidido como antes.

Em fúria, Pedro atira a enxada ao chão, e vai, lançado, encarar o filho.

 

PEDRO (CONT’D)
Pensas que vais ser alguma coisa?
Pensas que te vamos aceitar quando
voltares de rabo entre as pernas?

 

Se as palavras ferem Matias, ele não mostra. Já a cólera de Pedro é inconfundível. Matias continua a andar.

 

PEDRO (CONT’D)
Eu estava errado. Não és um homem.
e de certeza que não és meu filho.
É o Diabo que te tem agora. Que
encontres toda a miséria que o
mundo te tem reservado. Ouviste bem?
N
ão és um homem! Não és o meu filho!

 

Se este discurso o afeta, Matias não mostra.

As pragas continuam, até Matias estar fora de vista.

 

EXT. CAVERNA – NOITE
No meio da serra, vemos a boca de uma caverna escura, fonte do desconcertante som de um predador a consumir a sua presa: ossos quebrados, carne rasgada e o sorver violento de sangue.

Lá dentro, algo uiva na escuridão. Quase que parece um choro.

 

EXT. PELOURINHO – DIA

Uma multidão aglomera-se no largo do pelourinho. Homens e mulheres, vestidos com as roupas dos seus misteres, ouvem atentamente as palavras de um ALDEÃO (50).

 

ALDEÃO #1
Todas! Nem uma sobrou.
Foi uma chacina, senhores.

 

Há um burburinho vindo da multidão.

 

ALDEÃO #2
E tem a certeza que foram lobos?

 

ALDEÃO #1
Que mais podia ser?
Foram feras, uma matilha grande.
Disso não tenho dúvidas.

 

Do meio da multidão, Tomé não aguenta mais estar calado.

 

TOMÉ
Vossemecês sabem bem
que não falamos de lobos.
Há um monstro na serra.

 

A multidão discorda.

 

TOMÉ (CONT’D)
Ouvi os seus gritos. Nada criado
por Deus Nosso Senhor faria um
barulho tão vil.

 

ALDEÃO #2
Foi o Tomé que ouviu,
ou a garrafa de bagaço?

 

Os risos da multidão aliviam o ambiente.

 

TOMÉ
Riem-se porque têm medo!
Se tivessem visto a gruta
onde vive, saberiam que é o
covil do demónio.

 

ALDEÃO #3
Então é o Diabo que
anda a matar ovelhas?

 

Mais risos. Ao fundo, alguém não acha piada. CÉSAR (40) é um homem entroncado, com roupas de pastor. Ao pescoço enverga uma opulenta cruz de prata. Dá uma baforada no cachimbo e dirige‑se à multidão.

 

CÉSAR
Porque não?
Há um burburinho.

 

ALDEÃO #3
O Ti’César acredita mesmo
na palavra de um bêbado?

 

CÉSAR
Eu acredito no Senhor.
E quem acredita no Senhor,
tem de acreditar no Diabo.

 

ALDEÃO #1
Qual Diabo, César?
Foram lobos, Temos de ir
à caça, cavar mais fojos.

 

CÉSAR
Talvez tenham sido os dois.
Os antigos não contavam
histórias sobre o Lebzome?

 

Um tumulto. Alguns benzem-se à menção do Lebzome. A multidão assustada abre alas para César, que caminha para o pelourinho.

 

CÉSAR (CONT’D)
Meio homem, meio lobo, uma alma
negra como xisto. O seu fado é
correr os sete adros até ao fim dos
dias, devorando tudo pelo caminho.

 

Nenhum de nós estará seguro enquanto assombrar a serra.

 

ALDEÃO #2
Que podemos nós fazer?

 

CÉSAR
O trabalho do Senhor. Reunimos
os mais corajosos da aldeia,
encontramos o covil da besta,
e mandamo-la para o colo do
seu amo no Inferno.

 

Abate-se um silêncio brutal sobre o largo. Os mais novos estão expectantes, os mais velhos apreensivos.

 

EXT. PELOURINHO – DIA (ALGUNS MOMENTOS MAIS TARDE)
Os habitantes da vila começam a dispersar. Pedro assistiu a toda a cena. Não parece convencido.

Quando se prepara para ir embora, repara num jovem de aparência mais urbana que os demais. ALBERTO (30) está a despedir-se de um grupo de jovens da idade dele quando Pedro vê a sua chance.

 

ALBERTO
Oh Ti’Pedro, como anda? A besta
poupou-lhe os cordeiros, espero.

 

PEDRO
Antes a besta te levasse a ti,
seu cabrão empolado. Quero que
digas uma coisa ao Matias.
Alberto não esconde o choque.

 

ALBERTO
Ao Matias?

 

PEDRO
Sim, a esse desgraçado. Diz-lhe
que é um rafeiro imundo, e que eu
espero que ele goste de ser um servo
sem um pedaço de terra a que
chamar lar para o resto da vi-

 

Alberto tenta interjeitar.

 

PEDRO (CONT’D)
Não me interrompas, estafermo!
Não basta teres feito a cabeça
ao Matias para ir viver contigo.
Diz‑lhe qu-

 

ALBERTO
Não vejo o Matias há uma semana!

 

PEDRO
O quê?

 

ALBERTO
Ele disse-me que vinha comigo,
mas desde aí nunca mais lhe meti
a vista em cima. Só me vou embora
na outra semana, achava que ele
ainda estava consigo.

 

A expressão de Pedro trai a preocupação que tenta esconder.

 

INT. CASA – NOITE
Pedro está a dormir quando Luísa e Teresa irrompem no quarto.

 

LUÍSA
Pai, acorde!

 

Pedro demora uns segundos a despertar.

 

LUÍSA (CONT’D)
São os cordeiros,
estão num frenesim.

 

Pedro levanta-se num ápice. Retira um machado da parede e pega numa lamparina.

 

LUÍSA (CONT’D)
Serão lobos?

 

PEDRO
Fiquem em casa! Aconteça o que
acontecer, não saiam. Percebido?

 

As duas irmãs acenam, assustadas.

 

EXT. CAMPO – NOITE
Pedro, ainda de camisa de dormir, corre em direção ao curral.

Os balires incessantes dos cordeiros guiam-no no escuro.

O portão do curral está completamente despedaçado. Lá dentro, ouve-se um gemido mouco e o deleite inconfundível de um predador que apanhou a sua presa. Mesmo assim, Pedro entra.

Cordeiros mortos, lã manchada de sangue e vísceras estendem‑se pelo feno. Uma pequena ribeira de sangue desagua aos pés de Pedro. Na sua nascente, está ele. O LEBZOME.

É mais homem que lobo. As costas estão cobertas de pelo emaranhado e sujo, mas as pernas são nitidamente humanas.

Está curvado sobre um cordeiro, que devora. O intruso comanda a sua atenção.

A cara da criatura fez Pedro estremecer. Nem as orelhas pontiagudas, nem os olhos amarelos, nem os caninos afiados, nem mesmo o uivo animalesco que soltou quando viu Pedro podiam esconder quem era. Ali estava Matias. O filho rebelde.

Encaram-se, pai e filho, predador e presa.

 

PEDRO
…Matias?

 

Antes que este pudesse dar uso ao seu machado, o Lebzome parte pelos restos do portão e foge para a serra.

 

INT. IGREJA – DIA
Voltamos à igreja, e à conversa entre Pedro e António.

 

ANTÓNIO
Um pai nunca deve rogar
uma praga ao próprio filho.

 

PEDRO
Não há nada que possa fazer?

 

ANTÓNIO
Há histórias de ritos e rezas
antigas que revertem pragas.
Sei algumas delas. Mas Deus
ensina‑nos que a única coisa que
pode salvar uma alma é o perdão.

 

Silêncio.

 

ANTÓNIO (CONT’D)
Tem de ser sentido. Compreendes?

 

Pedro acena.

 

ANTÓNIO (CONT’D)
O César e os outros encontraram
a gruta. Partem esta noite.
Nós vamos com eles.

 

Os sinos da igreja tocam. Pedro repara no fresco pintado no altar da igreja, uma representação de Cristo durante a crucifixação.

 

PEDRO
Jesus clamou pelo pai até ao
momento em que morreu. E ele
não veio. Deixou o filho morrer.

 

ANTÓNIO
Para nos salvar a todos.

 

PEDRO
Não perguntou ao filho o que ele
queria. Tinha um plano para ele,
e fe-lo cumprir.

 

ANTÓNIO
Nenhum de nós sai beneficiado
quando nos comparamos a Deus.

 

PEDRO
Porque me castiga ele então?
Não somos feitos à Sua imagem?
Primeiro a São, agora o Matias.
Não fui o melhor marido, talvez
não tenha sido um bom pai. Isso faz
de mim um mau homem? Não paguei
o suficiente? Ele vai continuar
a tirar até não sobrar nada?

 

ANTÓNIO
Deus não tira, nem dá. Deus fala.
E são sensatos aqueles que ouvem.

 

EXT. SERRA – NOITE
César guia o seu rebanho, cerca de doze aldeões, pela escuridão da serra. Empunham cutelos, forquilhas e lamparinas. Entre eles está Tomé, que troca a lamparina por uma bagaceira. Pedro e António vão à frente com o pastor.

Ninguém fala. Mal respiram. Mesmo os sons das silvas e galhos pisados são demasiado.

A procissão para. Diante deles está a gruta. César olha para Tomé.

 

CÉSAR
É aqui?

 

Tomé acena com a cabeça. Os mais resolutos tremem. Os medrosos estão aterrados. César permanece impávido.

 

CÉSAR (CONT’D)
Não se enfrenta o Diabo de
pernas bambas. Aqueles com
medo partam agora.

 

Ouvem-se passos apressados. Três deserções.

César dá dois passos decididos em direção à boca da gruta.

 

CÉSAR (CONT’D)
Lebzome! Sai do teu lar
e enfrenta‑nos, condenado!

 

Do interior da gruta sai um rugido. Mais duas deserções.

 

CÉSAR (CONT’D)
Tarrenego, filho do Inemigo!
Ides voltar para o colo do teu
amo com o rabo entre as pernas!
Ides voltar para o Inferno!

 

Dois olhos amarelos sobressaem da escuridão.

 

CÉSAR (CONT’D)
(repetido como uma mantra)
O Senhor é meu pastor
e eu nada temo.

 

O Lebzome revela-se. Até César dá um passo atrás.

 

PEDRO
Matias!

 

O Lebzome olha para Pedro. César aproveita esse segundo de hesitação para atacar o Lebzome com o cutelo. Após um uivo de dor, a criatura riposta às cegas, abrindo a jugular de Tomé.

Os aldeões que ainda não tinham desertado correm pelas suas vidas.

Pedro tenta travar César, que continua o seu ataque frenético à criatura, mas este acerta-lhe com o braço e manda-o ao chão. Agora é a vez do Lebzome aproveitar uma oportunidade: com um golpe certeiro, atira César ao chão e arrasta-o para dentro da gruta.

António ajuda Pedro a levantar-se, e entram no lar da besta.

 

INT. GRUTA – NOITE
Pedro e António são cumprimentados por escuridão total e um cheiro fétido a morte. O som de uma luta pela sobrevivência ecoa pelas paredes: gritos, urros, choros de agonia e de esforço.

Os dois homens seguem o ruído da batalha até às profundezas da gruta. À medida que a percorrem, os barulhos de luta são substituídos por um gemido sôfrego e estridente.

Uma fenda no teto da gruta deixa entrar alguma luz da lua, o suficiente para Pedro e António não andarem às cegas.

Chegaram ao fim. À sua frente, o resultado da disputa.

De um lado, César. Está caído de joelhos, coberto da cabeça aos pés de sangue e com a barriga aberta. Na mão direita, segura a sua cruz de prata.

O Lebzome está prostrado no chão. É ele a fonte do gemido.

Para além do braço quase decepado, tem ainda um golpe profundo no peito, de onde jorra um sangue negro.

Pedro corre para a criatura e ajoelha-se. António empunha uma cruz diante da besta, e começa uma reza em latim. Olha para Pedro.

 

PEDRO
Matias? Consegues ouvir-me?
Isto é só um pesadelo. Vais
acordar, e vai tudo ficar bem.
Eu perdoo-te. Ouviste? Estás
perdoado. As tuas irmãs têm
saudades tuas. Volta para nós.

 

António leva a cruz ao braço ferido de Matias. Sai fumo da ferida, como se a estivesse a cauterizar.

Pedro olha para António, que está com uma expressão grave.

 

PEDRO (CONT’D)
Porque é que não
está a funcionar?

 

ANTÓNIO
Pode qualquer alma
ser salva, Pedro?

 

Há um brilho nos olhos de Pedro. Sabe o que tem de fazer.

 

PEDRO
Falhei-te. Foi a minha ira que
te fez assim. A tua vida é a tua
vida. Faz com ela o que quiseres.
Vai para Lisboa, torna-te o teu
próprio homem. A tua mãe ia ter
tanto orgulho em ti. Amo-te, filho.
Perdoa-me.

 

Ali ao luar, os uivos da besta quase parecem soluços de choro. Sangue continua a verter da ferida. Pedro abraça-se ao filho.

Os uivos dão lugar ao silêncio.

 

PEDRO (CONT’D)
Filho?

 

Nem um som.

 

EXT. CAMPO – DIA
Longe da aldeia, Pedro trabalha no seu pequeno terreno agrícola. A enxada pesa-lhe nas mãos e vê-se com dificuldades em trabalhar. Luísa e Teresa acompanham-no, ajudando no que podem.

Parece que vai chover. Luísa e Teresa largam as ferramentas e vão para casa. A atenção de Pedro recai sobre o curral.

 

EXT. CURRAL – DIA
As marcas da chacina não foram totalmente eliminadas. A madeira tingida de sangue seco e o número diminuto de ovelhas preserva a tragédia que ali se abateu.

Matias, na sua forma humana, está sentado no chão. O curativo no seu peito nota-se por debaixo da camisa, e tem o braço esquerdo ligado. Ao seu lado repousa uma bengala.

Afaga um cordeiro, com uma ferida muito feia numa das patas.

Parece infetada.

O balir do cordeiro enfraquece à medida que fecha os olhos.

Matias canta baixinho, uma espécie de canção de embalar.

Pedro entra no curral. Não interrompe o filho. Senta-se ao seu lado.

O cordeiro fecha os olhos pela última vez.

 

FIM

FRANCISCO FELICIDADE

Francisco Felicidade nasceu há 24 anos no Hospital Garcia da Orta, algures pelas 8 da manhã. Nascido e criado na Margem Sul, licenciou-se e mestrou-se em Ciências da Comunicação na FCSH, onde descobriu o bichinho pelo cinema. Frequenta o doutoramento de Arte dos Media e Comunicação na Universidade Lusófona, e é guionista nas horas vagas. É membro fundador da Incubadora, um coletivo de jovens cineastas que adora diretas e trabalhar sem orçamento. A última curta que co-escreveu, “Estrilho”, venceu dois prémios no 48 Hour Film Project – Lisbon 2025, “Melhor Uso da Personagem” e “Prémio do Público – Sessão C”. Odeia descrever-se na terceira pessoa.

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