1. EXT. RUA DE MIRAGAIA – TARDE
Miragaia é um bairro social no coração da cidade do Porto.Casas, cafés e tascos humildes. O movimento na rua é moderado. O ambiente não é hostil, mas pode causar algum desconforto para quem vem de fora.
JÉSSICA (8) nasceu e cresceu em Miragaia, tal como o seu melhor amigo FÁBIO (8). Gostam ambos de jogar à bola depois da escola. Estão agora na rua com alguns rapazes que estão a decidir equipas para um jogo de futebol.
JÉSSICA
Dizes ao Marcus para
ficarmos na equipa dele?
FÁBIO
Ele a mim deixa, a ti é que
já não sei. Não marcas.
JÉSSICA
Já sabes que eu fico
sempre à baliza.
FÁBIO
Olha que eles mandam de força.
JÉSSICA
Já defendi com os do sétimo.
MARCUS (11) aproxima-se deles.
MARCUS
Fábio ficas da minha. São eles a
começar. Vamos eu e tu avançados.
Marcus olha para Jéssica.
MARCUS (CONT’D)
Jeca hoje não dá para jogares.
Estamos com número certo.
FÁBIO
Não estás sempre a dizer que ela
jogar ou não nem faz diferença?
MARCUS
Pronto, vais à baliza.
JÉSSICA
Já sei.
Marcus avança para o “meio do campo” com Fábio. Entretanto passam duas raparigas: BRUNA (8) e TATIANA (8). Jéssica olha para elas, mas elas fazem de conta que não a vêm. Ouve-se a voz de Marcus.
MARCUS
Fico nada com um a mais,
é a chavala!
2. EXT. RUA DE CIMA – FIM DE TARDE, HORAS DEPOIS
Jéssica e Fábio caminham para casa.
FÁBIO
Elas até são fixes.
JÉSSICA
Elas são fixes para ti porque a
Tatiana o ano passado disse à Bruna
que te queria dar um “bate-chapas”.
FÁBIO
O quê?!
JÉSSICA
Nos anos da Bruna a minha mãe disse
à mãe dela para me convidar. Então
eu fui e ouvi elas a dizerem isso
enquanto se pintavam, que a Tatiana
deu-lhe um coiso de pinturas.
FÁBIO
Também te pintaste?
JÉSSICA
Achas?! Fiquei a ler um livro do
Lucky Luck que era do pai da Bruna.
Eles chegam a casa de JÉSSICA.
FÁBIO
Até amanhã.
JÉSSICA
Não te esqueças que havia
TPC’s de Estudo do Meio.
3. INT. CASA DE JÉSSICA – FIM DE TARDE, LOGO A SEGUIR
Jéssica entra em casa. É uma casa pequena. A entrada dá directamente para a cozinha que é também a sala, onde estão: a sua irmã, CÁTIA (12); a sua mãe, ARMANDA (32); e o seu pai, RUI (36). Os três estão à mesa a jantar.
ARMANDA
Olha, lá por ainda ser de dia
não deixam de ser oito da noite.
JÉSSICA
Estávamos a jogar.
RUI
Cheiras a suor que tolhe.
Vais tomar um banho antes
de te sentares à mesa.
JÉSSICA
(para Cátia)
O teu namorado quase que
nem me deixava jogar.
CÁTIA
Namorado?
Está doida a chavala!
RUI
Que conversa é essa?
JÉSSICA
Porque é que mentes?
ARMANDA
Cátia, ponho-te na rua, ouves bem?
CÁTIA
É mentira!
Cátia leva um estalo do pai. Jéssica fica séria.
JÉSSICA
Estava a brincar.
ARMANDA
Olha e tu já fizeste
os trabalhos de casa?
JÉSSICA
Vou fazê-los agora.
Jéssica leva um estalo da mãe, não reage.
ARMANDA
O teu pai já te disse para ires
tomar banho e a seguir vais direta
para o quarto fazer os deveres.
Jéssica vai para a casa de banho. Armanda levanta a mesa.
ARMANDA (CONT’D)
Cátia vai ajudar a tua
irmã com os trabalhos de casa.
4. EXT. RUA DE MIRAGAIA – TARDE, DIA SEGUINTE
Jéssica está sentada a ver Fábio, Marcus, e outros rapazes jogar. Vem sentar-se com ela RAFAEL (17), irmão de Marcus.
RAFAEL
O meu irmão expulsou-te do jogo?
JÉSSICA
A minha irmã deve-lhe ter dito
que eu ontem disse aos meus
pais que eles eram namorados.
RAFAEL
Apetece-te um gelado?
Jéssica, envergonhada, não responde.
RAFAEL (CONT’D)
Fazemos assim, Jequinha.
Já que não estás a jogar.
Sabes onde é o Bairr’Inês?
JÉSSICA
Sim, era onde o meu
pai vivia dantes.
RAFAEL
Vais lá. Está lá um senhor da idade
do teu pai, ele usa sempre boné e
vê mal dum olho. Dás-lhe isto.
Rafael dá-lhe para a mão um saquinho de plástico pequeno.
JÉSSICA
Que é isto?
RAFAEL
Isto é dinheiro para os gelados.
Jéssica não percebe bem, mas fica calada.
RAFAEL (CONT’D)
Ele tem de te dar quarenta euros em
troca disto. Duas notas de vinte.
5. EXT. BAIRR’INÊS – TARDE, MOMENTOS DEPOIS
Jéssica caminha pela rua do bairro e vê ABEL (46), o tal homem de boné, à espera. Caminha até ele timidamente, fala-lhe estendendo o saquinho de plástico.
JÉSSICA
O Rafa disse que isto era para si.
ABEL
O Rafael agora tem crianças a
trabalhar para ele, anda com medo?
JÉSSICA
Ele disse para trocar por quarenta
euros. Para comermos um gelado.
ABEL
(rindo-se)
Filho da mãe… Toma lá.
Abel dá-lhe quatro notas de dez euros. Jéssica confere.
JÉSSICA
Ele disse que eram duas de vinte.
ABEL
Olha lá, dez mais dez?
Jéssica não responde.
ABEL (CONT’D)
É vinte! Tens aí quatro.
Desaparece e vê se aprendes
na escola.
Jéssica desata a correr assustada.
6. EXT. RUA DE MIRAGAIA – TARDE, MOMENTOS DEPOIS
Jéssica chega ao pé de Rafael. Fábio, Marcus, e os outros rapazes continuam a jogar.
JÉSSICA
(perto das lágrimas)
Está aqui.
Jéssica estende-lhe as quatro notas de dez euros.
JÉSSICA (CONT’D)
Eu não sei se está bem, ele
não me deu duas de vinte.
Rafael agarra na cara dela com carinho.
RAFAEL
Está óptimo, Jecas!
Está perfeito.
Rafael tira uma nota de cinco da sua carteira e dá-lha.
RAFAEL (CONT’D)
Anda, compra dois e guarda o troco.
JÉSSICA
Qual é que tu queres?
RAFAEL
Traz-me um igual ao teu.
7. INT. CASA DE DONA ADELAIDE – NOITE, MESMO DIA
Jéssica e Fábio entram. A casa é ainda mais pequena do que a de Jéssica.
Há uma sala muito pequena com uma cama e um fogão a gás com um lavatório, e uma casa de banho muito pequena ao lado. DONA ADELAIDE (67), avó de Fábio, está na cama a ver televisão.
JÉSSICA
Dona Adelaide, podes ligar
à minha mãe a dizer que eu
fico a dormir cá hoje?
DONA ADELAIDE
Jequinha, já sabes que tens
de ser tu a avisar a tua mãe
quando vens cá.
JÉSSICA
É só que nós fomos aos carrinhos
de choque e eu não tive tempo.
Dona Adelaide olha para Jéssica durante uns segundos e depois pega no telemóvel.
MATCH CUT TO:
8. EXT. CEMITÉRIO – MANHÃ
LEGENDA: 9 ANOS DEPOIS
JÉSSICA (17) tem o telemóvel encostado à cara. Ninguém atende, ela guarda o telemóvel. Percebemos que ela está com CÁTIA (21), FÁBIO (17), DONA ADELAIDE (76), e MARCUS (20) que estão no funeral de Armanda. O ambiente é apático.
9. INT. CASA DE JÉSSICA – TARDE, MESMO DIA
Jéssica chega a casa. RUI (45) está adormecido com uma garrafa de whiskey quase vazia ao seu lado. Jéssica desliga a televisão que estava ainda ligada.
10. INT. CASA DE BANHO – TARDE, LOGO A SEGUIR
Jéssica entra na casa de banho. Mal entra percebe que Cátia está sentada na sanita cheia de sangue. Ambas assustam-se.
JÉSSICA
Tens pensos aqui na gaveta.
Jéssica percebe que a irmã está a chorar.
JÉSSICA (CONT’D)
Queres um brufen?
CÁTIA
Não digas ao Marcus.
JÉSSICA
Acho que o Marcus já deve
ter percebido há anos que
isto acontece uma vez por mês.
Cátia acena que não com a cabeça. Finalmente Jéssica percebe.
JÉSSICA (CONT’D)
Cátia, temos de ir ao hospital!
CÁTIA
Deixa, já está! Só não
contes ao pai, ou ao Marcus.
Jéssica sai da casa de banho.
JÉSSICA
Foda-se.
Jéssica volta e atira a Cátia uma caixa de preservativos.
11. EXT. RUA DE MIRAGAIA – NOITE, MESMO DIA
Jéssica e Fábio fumam um charro de erva.
FÁBIO
Quanto é que eu te devo?
JÉSSICA
Já te disse que quando vem
do Rafa não me deves. Esta é
a minha parte.
FÁBIO
Tu não recebes dinheiro?
JÉSSICA
Também.
Fábio olha para ela, sério.
JÉSSICA (CONT’D)
Não podes falar.
FÁBIO
Queres-te fazer de burra, é
contigo. Marcaste os exames?
JÉSSICA
Fábio. Achas que eu vou para o
caralho da universidade?
FÁBIO
Eu já não acho nada.
JÉSSICA
Eu estou bem assim.
FADE P/ NEGRO.
12. EXT. PORTA DA CASA DE DONA ADELAIDE – NOITE
LEGENDA: 8 ANOS DEPOIS
JÉSSICA (25) bate à porta. Está ansiosa e agitada, mas traz desgaste estampado no rosto. FÁBIO (25) abre a porta.
FÁBIO
Que é que estás aqui a fazer?
Jéssica não estava a espera de o ver. Não consegue responder.Fábio fecha a porta atrás de si.
FÁBIO (CONT’D)
Achas que são horas para
vires incomodar a minha avó?
JÉSSICA
Eu não sabia que estavas aqui.
FÁBIO
Já somos dois.
JÉSSICA
Eu não tenho estado muito por cá.
FÁBIO
E quando estás é aqui que vens.
Jéssica fica surpreendida.
FÁBIO (CONT’D)
Eu sei que vens cá a casa. A minha
avó não me diz, mas eu sei.
JÉSSICA
Eu sei que ela não está muito bem-
FÁBIO
Jéssica. Tu não vens aqui
para ver como está minha avó.
JÉSSICA
Ela às vezes dá-me jantar.
FÁBIO
Dá-te dinheiro!
JÉSSICA
É só quando eu preciso-
FÁBIO
Esquece, Jéssica. A minha avó nem
se consegue levantar da cama. E eu
também não te vou dar nada.
JÉSSICA
Fábio… eu estou mesmo a
precisar. Só desta vez.
FÁBIO
Tu estás a precisar é de parar de
lhe dar na castanha e encontrar
ajuda que estás toda fodida.
JÉSSICA
Eu vou, eu vou, eu juro.
(prestes a chorar)
Só que eu agora estou mesmo mal,
eu… desculpa, é a última vez
eu prometo, eu só preciso de me
acalmar um bocado. Deixa-me dar
um beijinho à tua avó.
FÁBIO
Se quiseres entras e comes
alguma coisa, mas é só isso.
E depois vais-te embora.
Jéssica não fica exactamente feliz mas acena que sim. Fábio abre a porta e eles entram.
13. INT. CASA DE DONA ADELAIDE – NOITE, LOGO A SEGUIR
Fábio e Jéssica acabaram de entrar. DONA ADELAIDE (84) está deitada na cama. Está meio acordada mas não é capaz de falar.
Fábio tira comida do frigorífico, põe num prato, e aquece a comida no microondas. Enquanto ele faz isto, Jéssica fita uma caixa de comprimidos de morfina na mesa de cabeceira – é medicação para Dona Adelaide. Jéssica vai até à mesa de cabeceira. Dona Adelaide olha para ela, mas como não está capaz de falar fica só ansiosa enquanto vê Jéssica pegar na caixa dos comprimidos e escondê-la no bolso do casaco.
O microondas apita. Fábio traz um prato de comida.
FÁBIO
Toma.
JÉSSICA
Fábio, achas que me
podes ajudar só desta vez.
FÁBIO
Jéssica. Eu não te vou dar dinh-
JÉSSICA
Eu sei. Eu não estou a conseguir,
eu estou mesmo mal. Eu juro que eu
só preciso de um bocadinho. Eu
nunca mais te peço. É que eu não
tenho ninguém a quem-
FÁBIO
Calma.
JÉSSICA
Eu não posso pedir a mais
ninguém. (chora)
Eu preciso de ajuda.
FÁBIO
Pois precisas.
JÉSSICA
Não é isso. Eu- Tu és meu
amigo, eu vou-te dar de
volta depois. Tu nunca me
deixaste ficar mal, Fábio.
FÁBIO
Jéssica, eu sou teu amigo. Mas não
te vou deixar fazer este choradinho
em frente à minha avó. Está aqui a
comida. Se não queres, desculpa,
mas vais-te embora.
Jéssica fica de rastos. Muda completamente e exalta-se.
JÉSSICA
Tu não percebes! Choradinho?
Achas que isto- tu nem fazes
ideia! Deixaste toda a gente aqui.
Nem quiseste saber!
FÁBIO
Jéssica, se não paras de gritar eu
juro que te arrasto para a rua!
JÉSSICA
Arrasta! ARRASTA! Resolveste por
cá hoje os pés? É preciso a tua
avó estar sem se mexer para tu
apareceres e dares o ar da tua
graça?! Não vales nada!
Jéssica dá uma bofetada no prato da comida e vai tudo pelo ar. Fábio fica furioso, agarra-a pelos pulsos com força.
FÁBIO
Põe-te na rua! Eu não te devo nada,
Jéssica. NADA! Nem eu, nem ninguém,
muito menos a minha avó!
JÉSSICA
Estás a magoar-me.
FÁBIO
Vem o Rafa e outros todos aqui,
a casa do teu pai, pedir dinheiro
que deves. Não tens vergonha? A
tua irmã nem te pode ver à frente.
É só merda à tua volta!
JÉSSICA
(chora)
Eu nunca quis magoar ninguém.
Tu és o meu único amigo…
FÁBIO
(largando-a)
Não tens mesmo vergonha na cara.
JÉSSICA
(desabando no chão)
Fábio, por favor. Tu és a pessoa
que eu mais gosto no mundo.
FÁBIO
Vai-te embora, Jéssica.
JÉSSICA
Tu deixas-te me aqui-
FÁBIO
SAI!
Jéssica sai, completamente destruída.
14. EXT. PORTA DA CASA DE DONA ADELAIDE – NOITE, LOGO A SEGUIR
Jéssica limpa as lágrimas, agitada. Dá pontapés na parede. Agarra na caixa da morfina — só há dois comprimidos. Ela engole com dificuldade os dois. Pega no telemóvel. Vê as chamadas não atendidas de Rafael. Vai à lista de contactos e liga a Marcus, que atende passado um bom bocado.
MARCUS (O.S.)
Estás doida? Se o meu
irmão sabe que me ligaste-
JÉSSICA
Marcus, eu preciso de um favor.
15. INT. CARRO – NOITE, ALGUM TEMPO DEPOIS
MARCUS (28) e Jéssica dentro do carro. Marcus conduz.
MARCUS
Se era cavalo que querias, já
foste. Trouxe outra merda qualquer.
JÉSSICA
Obrigada, Marcus.
Marcus começa a reparar no estado em que Jéssica está.
MARCUS
Porta-luvas.
Jéssica retira do porta-luvas um saquinho com pastilhas.
MARCUS (CONT’D)
Parte uma a meio para já
que isso é forte como o raio.
Jéssica toma meia pastilha e encosta-se no assento.
MARCUS (CONT’D)
Então, ainda dás uns toques?
JÉSSICA
Há anos que não toco numa bola.
MARCUS
Não deves tocar em nada
mesmo, com esse fedor!
JÉSSICA
(tem um ataque de riso)
Achas que é o cheiro? Foda-se…
Já olhaste bem para mim?
MARCUS
(brinca também)
Estou a tentar não olhar
muito. Abre-me essa janela!
Jéssica abre a janela do seu lado. Mete a cabeça de fora e dá gritos de êxtase. Marcus vai olhando para ela, divertido.
16. EXT. TELHADO – NOITE, POUCO TEMPO DEPOIS
Jéssica e Marcus estão sentados no último andar exterior de um prédio. Jéssica toma outra pastilha.
MARCUS
Como é que anda a tua irmã?
JÉSSICA
Eu não falo com ela.
MARCUS
Então?
JÉSSICA
Afastei-me um bocado.
(um pouco desafiadora)
Diz-me tu.
MARCUS
Eu já não falo com a Cátia há
imenso tempo. E o Fábio? Ele volta
e meia vinha aí ver a avó.
JÉSSICA
Já não os vejo há algum tempo.
Jéssica deita-se no chão e fecha os olhos por uns segundos.
17. INT. CASA DE DONA ADELAIDE – NOITE (FLASHBACK)
Jéssica (8) e Fábio (8) estão em casa. Dona Adelaide (67) fala com Armanda ao telefone.
DONA ADELAIDE
Armandinha, eles tiveram a
brincar e passou. Aliás quem se
esqueceu de te ligar até fui eu.
(ouve) Não! Não abusa nada, agora
abusar. (ouve) Pronto, e amanhã
não ralhes com a miúda, que fui
eu que me esqueci. Pronto,
Armandinha, boa noite.
JÉSSICA
Já vou levar amanhã.
DONA ADELAIDE
Levar o que é que vais levar?
Ai de quem. A tua mãe comigo pia
fino, já andei com ela ao colo.
FÁBIO
Avó, tens comida?
DONA ADELAIDE
(estende a mão a brincar)
Chegas-me a estas horas,
realmente havias de comer daqui.
JÉSSICA
(para Fábio)
A Dona Adelaide bate-te?
DONA ADELAIDE
Estou só a brincar
com ele, filha.
FÁBIO
E força?
DONA ADELAIDE
Olha chega-te
aqui que tu vês!
Dona Adelaide começa a fazer cócegas a Fábio.
DONA ADELAIDE (CONT’D)
Estás-te a rir, Jequinha?
Olha que também levas!
Jéssica recebe a sua dose de cócegas.
DONA ADELAIDE (CONT’D)
(pega na carteira)
Pega, Fábio. Vão ali ao Mariana e
tragam duas doses do que houver.
Chega e sobra para a gente. E a
seguir vai cada um tomar um banho!
18. INT. CASA DE DONA ADELAIDE – NOITE, HORAS DEPOIS (FLASHBACK)
Jéssica, Fábio, e Dona Adelaide partilham a única cama da casa. Dona Adelaide já dorme.
FÁBIO
Porque é que lhe
chamas Dona Adelaide?
JÉSSICA
Porque ela não é minha avó.
FÁBIO
Mas tu dormes aqui tantas vezes.
Jéssica começa a fechar os olhos.
MARCUS (V.O.)
Jeca?
19. EXT. TELHADO – NOITE (PRESENTE)
Jéssica desperta.
MARCUS
Fogo, estava a ver já.
(hesita) Olha que isto um dia-
JÉSSICA
Já sei.
MARCUS
Isto foi uma vez. Não volta a
acontecer. Posso ser irmão, mas
isso a ele não lhe diz nada.
JÉSSICA
Era melhor quando levava balázios.
MARCUS
Tu levavas?! Borravas-te toda.
Fugias. Partia-se um para-brisas.
Quem levava depois éramos nós.
Jéssica ri-se.
MARCUS (CONT’D)
É! “Eu defendo”… vai um biqueiro,
entrava na baliza e num carro se
fosse preciso. Os burros éramos
nós, deixarmos a menina jogar.
Jéssica pára lentamente de rir.
JÉSSICA
A Cátia esteve grávida de ti.
Marcus fica sem reação.
JÉSSICA (CONT’D)
Eu prometi que não te dizia nada na
altura. Teve um aborto lá em casa,
no dia do funeral.
Jéssica deita-se de costas no chão e olha para o céu.
JÉSSICA (CONT’D)
Não é para te fazer sentir mal.
MARCUS
Porque é que ela não me disse?
JÉSSICA
Porque tu eras um cabrão
e ela tinha medo de ti.
Jéssica fecha os olhos. Enquanto Marcus fala, vêm‑se pontualmente:
FLASHBACKS DE JÉSSICA EM CRIANÇA A ADORMECER NA CAMA COM FÁBIO E DONA ADELAIDE.
MARCUS
Eu acho que tu devias ligar ao
Fábio. Vocês davam-se bem, eram
amigos. Olha, a avó dele é que eu
acho que mais dia menos dia…
pronto, é o que é. Mas devias
passar lá um dia destes, dar um
abraço à velhota, ela gostava de
ti. Também andavas sempre enfiada
lá em casa. O Fábio havia de gostar
que fosses lá um dia que ele venha
visitar a cota. De mim nem vai
querer saber, o anormal. Vá-se lá
perceber, não é, Jeca?
Não há resposta.
MARCUS (CONT’D)
Jecas?
Jéssica permanece imóvel, de olhos fechados.
CORTA P/ NEGRO.
MARCUS (V.O.)
Jéssica?
FIM
RITA DUQUE
Rita Duque é actriz e argumentista portuguesa, filha do Douro e criada pelo Porto. Cresceu no bairro de Miragaia, onde frequentou um infantário católico sem nunca ter sido baptizada. Apesar das rezas e de se ter dado bem com as freiras, não acredita em deus. Aos seis anos queria ser futebolista, mas acabou por seguir formação de actores desde o Porto a Barcelona. A vida académica foi um malabarismo desregrado, mas fácil. Terminado o curso e avançando a idade, essa agilidade não passa agora de uma dor na lombar. O ballet veio cedo tirar o pio ao futebol, mas a ginástica acabaria por enterrá-los aos dois no esquecimento. Agora que já não compete, virou-se para a escalada. O desporto sempre foi um refúgio, e nos últimos anos a escrita compete por esse lugar e com objectivos bem mais sérios, ainda que menos metódicos. Apesar de ter nascido em 1998, gosta de fingir o estilo de quem cresceu nos anos 70 e 80 a ouvir rock português. Gosta de comprar o jornal com regularidade, e a menina do quiosque já o pousa no balcão mal a vê estacionar. É uma fã desavergonhada do universo Tarantino e deslumbra-se de forma fácil e ingénua com o imaginário americano. Ainda assim, não há “pussy wagon” que ruja mais alto que as correntes da costa portuguesa que lhe rebentam nas veias. A verdade é que com tanto nevoeiro e tanto fado a alma acaba sempre a escorrer-lhe salgada rosto abaixo. De vez em quando atreve-se a capturar uma imagem ou outra e, correndo-lhe bem, até chama a isso de fotografia, mas envergonha-se de nunca ter pegado numa máquina analógica. Gostaria de se gabar de algumas conquistas nos festivais “tal e coiso”, mas é precisamente aí que esbarra na fronteira entre a sua lata e o seu síndrome de impostora.
