EXT. RUAS DO CAIS DO SODRÉ – NOITE
As ruas do Cais do Sodré fervilham. Néons piscam à porta de bares de onde escapa música abafada e promessas de noites sem fim. Os candeeiros cospem uma luz amarelada revelando fachadas gastas e paredes grafitadas.
Na calçada irregular e suja, uma sucessão de pés define a multidão noturna lisboeta: ténis brancos imaculados, saltos altos, botas Doc Martens. No meio deles, cruza-se um par de sapatos gastos, quase sem cor. São de SAJID (40s), que avança, curvado, carregado de flores, isqueiros e óculos fluorescentes.
SAJID
Flores. Um euro.
Ao ser ignorado, o corpo cansado deixa-se sentar no Largo de São Paulo. Ao lado, um homem descalço dorme, bêbado. Outro, fala sozinho enquanto procura beatas no chão.
Uma criança, de mão dada à mãe, cruza o seu olhar com o de Sajid. Ele sorri-lhe. A mãe, ao reparar, aperta a mão da filha e apressa o passo.
YASIR (O.S.)
Flores. Quatro? Cinco?
YASIR (20s), de sorriso ágil, está diante de um casal à porta de um apinhado bar junto ao largo. Com destreza, transforma flores num truque. A mulher ri. Yasir entrega-lhe uma flor, recebe umas moedas.
YASIR
(sorrindo para o casal)
Muitobrigado.
Yasir pega na caixa que tem aos seus pés, recheada de óculos fluorescentes, isqueiros e mais flores. Sajid olha para Yasir que assobia enquanto vira a esquina.
INT. AUTOCARRO – NOITE
Sajid, com os seus objetos agora empilhados no colo e no banco ao lado, observa os arredores da cidade pela janela. O vidro reflete o seu rosto cansado.
INT. CASA – NOITE
Uma chave luta com a fechadura. Depois de várias tentativas e um truque aprendido, a porta cede. Ao fechar, range.
Sajid descalça-se à entrada. Os seus sapatos gastos são colocados junto a outros sapatos igualmente gastos de tamanhos distintos. Em meias, avança com passos estudados, evitando pisar os corpos de colegas que dormem pelo chão.
Ouvem-se ressonares, uma ventoinha, e alguém em videochamada com a esposa.
Chega ao quarto. Deixa os objetos junto a uma pilha semelhante.
ZHERA (O.S.)
Eles ligaram outra vez.
Sajid sobressalta-se por um momento. Quando olha para trás, vê ZHERA (30s) que está deitada na cama.
SAJID
Diz-lhes que pagamos
para a semana.
ZHERA
Foi o que dissemos
na última semana.
Sajid suspira enquanto se volta para continuar a arrumar as coisas.
SAJID
Não vendi nada hoje.
Chegou um rapaz novo.
ZHERA
Tu és mais velho.
Respeitam-te mais.
Sajid sorri.
SAJID
Lá ninguém respeita ninguém.
Zhera observa-o enquanto ele esvazia os bolsos.
ZHERA
Estás mais magro.
Sajid vira-se, envergonhado.
SAJID
Estou igual.
Ele junta-se a ela na cama. Abraça-a de lado, exausto.
SAJID (CONT’D)
A nossa sorte vai mudar.
COLEGA DE QUARTO (O.S.)
Shiiiiiiuuu.
Sajid baixa a voz.
SAJID
Vamos abrir a nossa Chaiwala,
um sítio só nosso.
Fecha os olhos.
Zhera mantém-se séria.
SAJID (CONT’D)
Fecha os olhos.
Ela olha para ele apreensiva.
SAJID (CONT’D)
Vá.
Ela fecha os olhos. Ele vira-se. Ficam os dois de olhos fechados a olhar para o teto. Apenas se ouve a ventoinha.
SAJID (CONT’D)
Sentes este cheiro?
ZHERA
Qual cheiro?
SAJID
O cheiro a cardomomo, está
a invadir nossa grande cozinha.
Zhera sorri, entrando na brincadeira.
ZHERA
Começo a sentir sim.
SAJID
São dos ovos mexidos que estamos
a fazer para o casal na mesa 3
junto à janela. Agora, ouves a
máquina do café?
ZHERA
Sim. (inspira)
E o cheiro a café moído.
Sajid fareja. Olha à sua volta preocupado.
SAJID
Oh não…
Zhera é contagiada pela preocupação do marido. Levanta as suas costas da cama.
ZHERA
Que se passa?
SAJID
Cheira-me a queimado,
deixaste queimar os ovos.
Sajid ri-se e Zhera bate-lhe com almofada.
COLEGA DE QUARTO (O.S.)
Mais baixo!
Olham-se em silêncio, cúmplices.
SAJID
Vai correr tudo bem.
Grandes néons em cima
“Sajid e Zhera”, pessoas de
todo o mundo a beberem o melhor
chá e café das redondezas.
Zhera suspira e vira-se para o outro lado.
ZHERA
Os sonhos não matam a fome.
Sajid vira-a gentilmente novamente para si. Faz-lhe uma carícia na cara com as costas da mão.
SAJID
Mas ajudam-nos a aguentá-la.
Zhera não responde e Sajid dá-lhe um beijo na testa.
SAJID (CONT’D)
As coisas vão melhorar.
Prometo.
EXT. RUAS DO CAIS DO SODRÉ – NOITE
Na azáfama da noite, Sajid tenta desviar-se da multidão bêbeda, ao mesmo tempo que tenta ter a atenção de possíveis compradores.
SAJID
Flores. 50 cêntimo.
É ignorado por todos.
Alguns turistas passam por ele com óculos fluorescentes e flores na mão. A olhar nessa direção, vê Yasir que, a sorrir, coloca moedas no bolso.
Sajid caminha assertivamente até ele.
SAJID (CONT’D)
Esta é a minha zona.
Yasir continua a contar o dinheiro sem olhar para Sajid.
YASIR
Onde é que está
escrito o teu nome?
Sajid aproxima-se dele.
SAJID
Não te volto a avisar.
Sai do meu território.
Yasir ri-se. Olha finalmente para Sajid. Ficando mais sério, aproxima-se de Sajid.
YASIR
Teu território? Olha à tua volta.
Nada disto nos pertence. Nem a mim,
nem a ti. Somos bangoos.
Sajid não responde. Yasir suspira e vira-se de costas continuando a andar e a fazer truques com as flores.
YASIR (CONT’D)
Flores. Óculos. Flores. Óculos.
Sajid respira de forma pesada, entrecortada. Olha em redor. Os néons dos bares tremeluzem nomes em vermelho, azul, verde.
Corre para Yasir. Num impulso, agarra-lhe o ombro e empurra-o com força. Este cai no chão. Sajid recua um passo, surpreso com a própria violência. Olha para Yasir, caído, incrédulo com o que acabou de fazer. Yasir ergue-se num salto.
Sem hesitar, empurra Sajid de volta. Ele tropeça e ambos rebolam engalfinhados esmagando os óculos e flores de ambos.
Turistas recuam, alarmados. Outros levantam os telemóveis, prontos a filmar. Gritos cruzam-se com música de fundo.
Sirenas rompem com o tumulto. Luzes azuis e vermelhas aproximam-se, refletindo-se nas pedras da calçada.
Sajid e Yasir jazem no chão, ofegantes. Ambos feridos. À volta deles estão óculos partidos, flores esmagadas e isqueiros espalhados como destroços de guerra.
INT. CARRO DA POLÍCIA – NOITE
Com um olho negro e Yasir ao seu lado, Sajid olha pelo vidro do carro da polícia. As luzes, como néons, refletem na sua cara.
INT. ESQUADRA – NOITE
Com roupa rasgada e alguns cortes na cara e nos braços, vemos Yasir e Sajid que estão refastelados num banco corrido.
POLÍCIA #1 (O.S.)
Têm identificação?
POLÍCIA #2 (O.S.)
Claro que sim. Identificação,
seguro, contrato de trabalho,
vacinas em dia… O que é que
tu achas?
POLÍCIA #1 (O.S.)
Falam português?
POLÍCIA #2 (O.S.)
Fala, fala. O da esquerda está
a fazer uma tese sobre o Camões.
POLÍCIA #1 (O.S.)
Pronto, já percebi.
POLÍCIA #2 (O.S.)
Perguntas estúpidas,
respostas estúpidas.
Um telefone toca. Um suspiro pesado.
POLÍCIA #1 (O.S.)
Eu vou lá.
Ouvimos passos.
POLÍCIA #1 (O.S.) (CONT’D)
Sim?… Sim. Ok.
Vou chamar. Obrigado.
Ouvimos o telefone a ser desligado.
Mais passos.
POLÍCIA #1 (O.S.) (CONT’D)
Oh amigo, chegou alguém para ti.
Sajid olha à sua volta. Não parece compreender bem o que lhe dizem.
Polícia #1 faz um gesto com a mão para ele ir ter com ele. Sajid responde apontando com o indicador em direção do peito.
POLÍCIA #1 (O.S.) (CONT’D)
Sim, tu.
Sajid levanta-se, relutante, e coxeia para fora de plano. Há um último olhar para Yasir, que segura nuns óculos fluorescentes partidos.
INT. SALA DE VISITAS – NOITE
Em frente ao vidro, Zhera chora. Do outro lado, Sajid olha para baixo.
SAJID
Não chores.
ZHERA
Não choro?
Como é que não choro?
SAJID
Eu ligo.
ZHERA
Eu não quero que ligues,
eu quero-te em casa.
Sajid olha à sua volta. Polícias brancos, presos brancos, visitantes brancos.
SAJID
Casa…
POLÍCIA #1 (O.S.)
1 minuto.
Sajid perde um momento a olhar para Zhera nos olhos.
SAJID
Fecha os olhos.
Fundo preto.
SAJID (O.S.)
Sentes este cheiro?
ZHERA (O.S.)
O que é?
SAJID (O.S.)
Não identificas? É cardomomo,
está a encher a cozinha toda.
Uns sapatos gastos caminham no aeroporto.
ZHERA (O.S.)
Hmm consigo cheirar, e o
chá de canela, já ferveste?
Vemos o ecrã com os vários voos desse dia.
SAJID (O.S)
Está quase. Os ovos para
a mesa 2 já estão prontos.
As rodas de um avião a descolar de Lisboa.
ZHERA (O.S.)
(a voz começa a falhar)
Ok, consegues ir lá?
Tenho cinco limonadas para
a família na 3 para fazer.
SAJID (O.S.)
Claro, vou lá agora.
Não te esqueças que o
café para a 7 é com gelo.
Através da janela redonda do avião, vemos Lisboa a ficar cada vez mais pequena.
ZHERA (O.S)
Não me esqueço. Aqui nunca
nos esquecemos de ninguém.
O choro de Zhera fica cada vez mais distante, enquanto o som dos motores de um avião ganha cada vez mais força.
FIM
LOURENÇO VAZ
Lourenço Vaz nasceu em Lisboa, 18 de Abril de 1997, mas também em Nova Iorque nos anos 80, em Roma nos anos 60 e até nos anos 2000 na Coreia do Sul, tal eram os filmes e realidades dos DVDs que foi assistindo. Dividido entre livros e filmes, encontrou nos guiões o casamento perfeito. Algumas aulas de Economia no secundário sobre a lei da oferta e da procura foram suficientes para perceber que o seu caminho não passava por aí. Estou Cinema e TV na ETIC e posteriormente Guionismo em Londres. Trabalhou vários anos como realizador e guionista freelancer para publicidades, documentários, programas de televisão e curtas-metragens. Conta com o 3º lugar nos Prémios Sophia Estudante e 10 prémios no festival 48hfp com o filme Samanta: Má ou Santa. Em 2023 criou a Disaster, uma produtora que promete comunicar o incomunicável e continuar a quebrar barreiras.
