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Alguma coisa me atravessou e não vejo o furo que ficou

um argumento de
Danilo Bastos Godoy
ilustrado por
Rosário Pinheiro

Num quotidiano opressivo, um operador de call center transforma uma simples chave num acto de resistência invisível.

INT. CALL CENTER – DIA
Mesas e computadores, mesas e computadores e mais mesas e computadores.
MIGUEL (35), corpo cansado, descendente de angolanos, sotaque 100% português, está afogado num mar corporativo. Diante de um monitor encara um sistema de planilhas.
Headsets, bocas que falam, teclas que não param de escrever.
Algumas vozes desanimadas se misturam.
Na linha com Miguel: uma cliente idosa e irritada.

 

MIGUEL
(em monotonia simpática)
Se a luz vermelha piscar três
vezes, senhora, é problema no
chip. Se for verde, é o cabo
que está desconectado.

 

A voz estridente do outro lado: a reclamar e reclamar. Miguel revira os olhos. Ao lado do teclado está seu telemóvel com uma conversa de whatsaap aberta: emojis de diabinho, foguinho, um gif safado. A conversa é sexy e cheia de intimidade com LUCAS (32), seu namorado que está a trabalhar em uma mesa mais à frente de sua estação. Miguel digita rápido uma resposta kinky enquanto a cliente reclama.
Uma movimentação de colegas de trabalho subitamente muda o clima do ambiente.
Pessoas ajeitam-se nas cadeiras, guardam os telemóveis às pressas.
VASCO (45), veste seu fato Armani, sorriso e cabelo pro lado, de “Beto de Cascais”, atravessa as mesas a supervisionar o trabalho dos funcionários. Miguel está alerta. Parece inevitável. Está a andar em sua direção. Por entre as cabeças dos colegas Miguel avista Lucas, tentando alguma misericórdia. Miguel checa seu whatsaap rapidamente.
INSERT ESCRITO: “FUDEU”.
Vasco para logo ao lado de Miguel. Ele gosta daquele teatro todo e percebe de canto de olho que todos o temem.

 

VASCO
(baixo, próximo)
Miguel, tens um segundo?

 

Miguel engole seco. Uma COLEGA mais próxima olha-o com dó.

 

INT. CORREDOR DO ELEVADOR DE CARGAS – CONT
Caixas e prateleiras até o teto. Sem janela nem ventilação. O pó nas superfícies forma já uma camada grossa.
Miguel entra e logo depois vem Vasco que certifica-se de que ninguém os seguiu. Miguel tem as mãos no bolso, não sabe se é capaz de esconder o nervosismo. Vasco começa a falar num tom estranhamente íntimo, baixinho.

 

VASCO
Miguel… sei que viste… aquilo
nas escadas. Primeiro, quero que
fiques descansado: não foi assédio
nem nada disso, está entendido?
Não houve nada de errado. Foi…
consensual. Entre mim e a Jéssica.
Olha, não vou conseguir esconder
nada de ti: temos um caso, já
faz algum tempo.

 

Miguel encara o chão. Apenas quer sair dali.

 

VASCO (CONT’D)
Mas olha… na verdade, até foi
bom esse “acidente”. Deus sabe
o que faz, não é? Percebi é que
aquelas escadas de incêndio da
ala sul… não são lá grande
sítio para aventuras dessas.
Mas tu percebes, não é? Quando
bate aquela tusa… e com uma miúda
daquelas… oh, Jesus… mas enfim.
É arriscado. Sim, sim, sei que
devia ter pensado melhor. A cabeça
ali… pensou mais alto. Então…
para resolver a situação, comprei
um T0 ali ao lado. Uns 15 minutos
a pé. Pequeno, discreto. Naquele
prédio que em baixo tem o
Café Aurora, sabes?

 

Miguel acena que sim com a cabeça.

 

VASCO (CONT’D)
(baixa mais a voz)
Só que… olha, não posso
ficar com a chave. Nem a
Jéssica, entendes?

 

Vasco levanta a mão esquerda e faz sinal para a aliança que usa no dedo. A seguir ele retira do bolso uma chave daqueles modelos mais velhos de portas em edifícios antigos de Lisboa.

 

VASCO (CONT’D)
Tás promovido agora a guardião.
Fiel escudeiro. Percebes?

 

Miguel fica a ver a chave que recebe em sua mão.

 

MIGUEL
Peço desculpas Vasco, mas que é
suposto eu fazer com essa chave?

 

VASCO
Tu ficas sempre com ela. Não a
largues, ok? Quando eu e Jéssica
precisarmos do bem bom… eu venho
buscar a chave contigo.
Tá entendido?

 

Vasco dá uma piscadela e tapa no ombro de Miguel como se fossem amigos de anos.

 

MIGUEL
Vasco, desculpa…
mas não vai dar.

 

Vasco fica constrangido. Ajeita o cinto e as calças, tomando uma postura mais agressiva.

 

VASCO
Eu sei… eu sei que todos aqui
acham que nós somos uns parvos.
Chegam atrasados, fazem mais
horas de almoço… acham que
ninguém repara, não é? Eu sei
dos teus longos almoços, das
vezes que saíste antes da hora…
e que ficavas à espera na sala
de descanso até à hora certa
de ires embora. Sabe, Miguel…
eu sou um homem muito sensato.
No último ano, se calcular o
tanto de horas que me deves…
quanto achas que posso abater
do teu ordenado?

 

Miguel tenta reagir, engolindo a revolta.

 

MIGUEL
O Vasco sabe… que muitas
horas não temos clientes.
Ficamos a fazer nada.

 

VASCO
Isto é desculpa? Sou eu que pago,
pelas horas. E tu não estás a
cumprir o contrato, veja lá.

 

Silêncio. Miguel pega a chave, sem saída. Vasco sorri.

 

INT. QUARTO/CASA DE MIGUEL – NOITE
O quarto é pequeno. Roupas estão espalhadas por todos os cantos, assim como livros, remédios, artigos de esporte e haltéres. Lucas está na cama a jogar um jogo no telemóvel. Barulho da porta. Miguel chega. Lucas sai da cama e dá um beijo no namorado. Está exausto. Ele deixa a chave pendurada próxima da porta. Enquanto Miguel tira o sapato e a calça Lucas repara no chaveiro que está com aquela chave diferente.

 

LUCAS
Que chave é essa?

 

Miguel não acredita que vacilou… podia ter deixado no bolso o chaveiro. Olha para Lucas… sem saber o que dizer.

 

MIGUEL
O Vasco que meu deu… uma chatice.
É de um galpão lá perto do
trabalho. Ele quer que eu faça
um inventário do que tem lá.

 

Lucas suspeito segura a chave.

 

LUCAS
Ele vai te pagar por isso, lindo
Você já faz coisas demais pra
esse cara. Chega a ser abuso.

 

Miguel ri forçado.

 

MIGUEL
Deixa, nada demais.

 

Um silêncio desconfortável.

 

MIGUEL (CONT’D)
Vamos deitar, vai gatinho…
tô exausto, fiz um turno a
mais que tu hoje…

 

INT. QUARTO/CASA DE MIGUEL – MANHÃ
Miguel acorda e vê o namorado, sonolento, que também desperta. Os dois ficam se tocando e dando beijinhos enquanto um barulho de falas no corredor começa a aumentar. Ao virar uma gritaria os dois param as carícias e vão para a porta.

 

INT. PRÉDIO DE MIGUEL – MANHÃ
CELINA (45), cabo-verdiana está discutindo com o SENHORIO português (60s).

 

SENHORIO
Já chega, Celina. Tens de sair.
A intimação tá feita.

 

Ele coloca os papéis na mão de Celina obrigando-a a pegar os papéis.

 

CELINA
Só… só dois dias, senhor…
O patrão tá de férias e o
pagamento cai já…

 

SENHORIO
Não quero saber. Essa tua
gente é muito folgada. Eu tenho
contas para pagar! Se não tens
dinheiro, aqui não fica. Tens
até quarta‑feira para sair.

 

O senhorio vai embora. Celina chora. CLÉO, sua filha (10), aproxima-se da mãe.
Do andar de cima, pelas escadas Miguel e Lucas observam.

 

LUCAS
É a história de Lisboa né?

 

INT. CALL CENTER – DIA
As mesmas mesas, os mesmos computadores, porém agora tudo mais silencioso. O monitor apresenta uma planilha em branco. Nada pra fazer. Miguel olha o relógio, os segundos a andar.
Ao longe Miguel observa Vasco, que cruza a sala com seus AirPods a falar e falar num “call”. Vê que um FUNCIONÁRIO está distraído e chama sua atenção grosseiramente.
JÉSSICA (28), está com um carrinho de limpeza, empurra-o e passa por Vasco. Ela depois que passa por ele vira o olhar e dá um sorrisinho. Vasco corresponde. Um ato que poderia ser inocente e despercebido para todos, mas aos olhos de Miguel não. Eles tem um caso e agora um cúmplice com aquela chave. Coloca a mão no bolso e sente a chave, apertando-a. Ouvimos o ranger do barulho da chave com o chaveiro de Miguel: o som intensifica-se como se fosse toda sua raiva manifestada.

 

INT. COMBOIO DA LINHA DE SINTRA – FIM DE TARDE
O comboio lotado sai de Sete Rios. Retrato da realidade: Rostos negros, imigrantes cansados, turistas brancos, ciganos, senhoras portuguesas e torcedores do Benfica. A mistura da periferia, a linha que conecta mundos a parte. Diante destes perfis Miguel observa todos. Repara nos calos das mãos de um homem. Os dedos dos pés em sandalhas, a pele grossa dos calcanhares. Uma senhora de idade a olhar pela janela e com um terço na mão murmura alguma palavras. Um homem de turbante Sikh carrega consigo um calhamaço de documentos. O comboio para numa estação. Miguel desce.

 

EXT. ESTAÇÃO DE COMBOIO DA LINHA DE SINTRA – CONT
A pracinha na frente da estação está repleta de mesas abertas, cangas e toalhas no chão. Uma diversidade de MULHERES AFRICANAS em trajes típicos, tecido capulana, vendem ali quiabos, pimentos, cenouras, grãos e especiarias de comidas africanas. Um SENHOR DE IDADE português vende pão com chouriço, de porta malas do carro aberto, cheio de encomendas. Uma SENHORA SALOIA com roupas simples e pretas vende ovos frescos e bolsas. As vozes e sotaques se misturam entre o crioulo, português, angolano e brasileiro. Miguel acena para a senhora dos ovos, caminha, atravessa uma esquina e logo está em:

 

EXT. RUA DA CASA DE MIGUEL – FIM DE TARDE
Miguel avista quase a entrar em seu prédio Celina e a filha. Carregam garrafões de água, sacos de mercado e a filha leva sua mochila da escola nas costas. Existe ali certa dificuldade para abrirem a porta.

 

MIGUEL
Opa, Dona Celina,
espera que eu ajudo.

 

Miguel retira do bolso seu chaveiro, abre a porta e segura-a para as duas passarem.

 

CELINA
Obrigadu, meu filho… ka tá fáci,
não. Olha, desculpa estar a
importunar, mas… na tua casa
não tem algum quarto vago onde
eu e a menina possamos ficar
por um tempo? Só até arranjar
outro cantinho pra nós… tá tudo
tão caro. Como é que alguém ganha
800 euros e paga um quarto 500,
600…? Achar algo por 300?
Tá impossível, txeu…

 

Miguel olha para a menina, tímida ao lado da mãe.

 

MIGUEL
Esse aqui a gente paga 300 pelo
quarto, mas eu divido com o Lucas.
E no outro quarto mora o Pedro né,
que é o senhorio. Tivemos sorte
de conseguir, viu.

 

CELINA
Ah… assim era bom, mesmo.
150 dava pra pagar e viver pelo
menos… ka sei mesmo o que faze,
obrigadu viu.

 

Celina faz o gesto de subir com os pesos todos das sacolas. Miguel olha para seu chaveiro e observa a chave de Vasco que tem em mão.

 

MIGUEL
Celina, espera…

 

INT. APARTAMENTO DE VASCO – NOITE
Um apartamento/studio, jeito de Airbnb. Tudo clean, básico. E totalmente equipado.
Uma chave faz o som de virar e virar até que a maçaneta gira e vemos Miguel, Celina e Cléo entrar com sacos e malas.
Eles fazem silêncio. Celina está com o batimento cardíaco a mil. Parece loucura. Entram e Miguel fecha a porta.

 

CELINA
Miguel… Eu tenho medo de bater
com a polícia. Ka quero encrenca
com ninguém. Tô com tudo tão certinho,
os documentos da menina…
O meu também, essa semana levo na
AIMA pra finalizar. Ka posso
correr risco.

 

Miguel coloca a mala no chão.

 

MIGUEL
Só eu tenho essa chave. E agora a
senhora tem essa cópia que eu fiz.

 

CELINA
Mas… tá certo isso? A casa ka
é tua, nem nossa…

 

MIGUEL
Eu te expliquei tudo. Basta a
senhora ter sempre tudo já
quase embalado pra partir.
Te mando mensagem ou te ligo.
Não tem erro. Ele não vai
entrar aqui nenhuma vez sem
antes falar comigo. Então tá
tudo bem. E assim com calma
você acha algo teu…

 

CELINA
Eu… ka sei mesmo
como te agradecer.

 

Cléo já está no sofá, acomodada com fones de ouvido, sorrindo enquanto mexe no telemóvel.

 

INT. CALL CENTER – DIA
Mesas, cadeiras, tédio, tudo igual. A movimentação dos colegas de trabalho muda. Se ajeitam na cadeira e guardam seus telemóveis assim que Vasco faz sua passagem habitual. Fala e fala com os AirPods e vê os outros com vista grossa. Ao aproximar-se da mesa de Miguel faz um sinal para ele (evidente: quer a chave), olha ao redor para que ninguém veja a transação. Miguel pega seu chaveiro, discretamente tira a chave e entrega para Vasco.
Vasco dá uma piscadela e sai. Assim que sai de sua vista Miguel apanha o telemóvel e envia uma mensagem para Celina.

 

INT/EXT – SEQUÊNCIA DE MONTAGEM/CLIP – NOITE E DIA
– Celina cozinhando no T0. Vê a mensagem de Miguel. Apanha poucas peças de roupa que estavam na cama, joga na mala. Pega a própria panela, simples e velha e acomoda em panos dentro de um saco resistente. É perceptível que o modo “fuga” já estava ativado.
– Miguel no comboio, olhando para fora, pensativo.
– Vasco e Jéssica entram no apartamento aos beijos e se agarrando. O apartamento está impecável.
– Miguel no trabalho. Vasco lhe entrega a chave. Miguel envia mensagem para Celina: “Pode voltar”
– Lucas e Miguel discutindo. Miguel tem o chaveiro com a chave na mão.
– Celina está a ajudar a filha com uma lição da escola. Escuta o telemóvel tocar. Arrumam tudo e saem correndo.
– Miguel no trabalho. Atende uma pessoa na linha, verifica informações numa planilha.
– Vasco e Jéssica na cama do apartamento a foder.
– Miguel no comboio lotado vê a mão de uma mulher a segurar um saco de plástico carregado de comida, bem pesado. O plástico está quase a arrebentar na alça.

TELA PRETA – INSERT ESCRITO: DIA 28 DE ABRIL DE 2025 – 11H32

Miguel no trabalho. Mesas iguais, computadores a funcionar com suas burocracias em Excel e sistemas.
Do nada: tudo apaga. Luzes vão abaixo. Todos os computadores desligam.
Ouvimos um estrondo de longe. Um motor agora bem alto a funcionar. As luzes voltam. Os funcionários religam os computadores. Miguel aguarda seu computador reiniciar.

 

COLEGA
Vocês estão com rede?

 

COLEGA 2
Tô sem sinal… só Wi-Fi.

 

Burburinho começa. Lucas de longe olha intrigado para Miguel.

 

LUCAS
5G não funciona… Ligação normal
também não. Tá zerado aqui.

 

Miguel fica inquieto. Vasco logo surge.

 

VASCO
Continuem nos vossos postos.
Algum corte de energia ocorreu
e não foi só aqui… outras unidades
em Portugal e até em Espanha estão
nesta situação.

 

COLEGA 3
(Enquanto vê o telemóvel)
Minha família em França está a
dizer que lá também, sem telefone,
sem água… Internet apenas Wi-Fi
pra quem trabalha em prédio
com gerador…

 

Burburinho aumenta. Vasco não gosta.

 

VASCO
Calma, sem alardes. O gerador
está a funcionar. Há muito trabalho
para fazer. Os nossos clientes
estão espalhados pelo mundo todo.
Parece ser algo só aqui, em
território europeu… não sei.
Mas nada de pânico. De volta
ao trabalho.

 

Todos voltam aos computadores. Tudo aparentemente normalizado… Vasco aproxima-se de Miguel.

 

VASCO (CONT’D)
A chave Miguel. Bora
aproveitar um bocadinho hoje.

 

Vasco dá uma piscadela para ele. Miguel treme. Hesita.

 

VASCO (CONT’D)
Então?

 

O olhar de Vasco para Miguel é fulminante. Acaba por entregar a chave. Assim que Vasco se afasta Miguel tenta enviar mensagem para Celina e nada. Ela não recebe as mensagens. Tenta ligar. Não há sinal. Miguel desesperado, olha para os lados. Vasco já não está lá. Corre para perto da estação em que Lucas está a trabalhar.

 

MIGUEL
Amor. Preciso da tua ajuda.
E da mota. Depois te explico.
Sério, anda.

 

LUCAS
Que? Eu não posso sair agora…

 

MIGUEL
Lindo. É urgente. Mesmo.

 

Os dois se olham. Lucas percebe o namorado em estado alterado. É mesmo sério.

 

EXT. RUA – DIA
Lucas a conduzir a mota e Miguel atrás. Ele indica para onde ir. Os dois estão de capacete.
Miguel avista na calçada Vasco a andar e atrás, alguns metros, está Jéssica que segue-o disfarçadamente.

 

EXT. RUA DO APARTAMENTO DE VASCO – DIA
A mota para logo na frente do Café Aurora. Miguel sai apressado. Lucas o segue.
Na porta de entrada do prédio Miguel desesperado aperta todos os botões na esperança que qualquer pessoa abra… alguém abre finalmente. Miguel puxa Lucas e sobem rapidamente as escadas.

 

INT. CORREDOR/APARTAMENTO DE VASCO
Miguel toca a campainha e bate na porta.

 

MIGUEL
É o Miguel, Celina! – Rápido.
Agora, bora vazar.

 

Celina abre. Lucas está pasmo. Ela não discute, percebe a situação e pega suas coisas. Cléo vem também. Miguel pega uma mala já fechada. Muito rápido descem as escadas. Celina e Cléo na frente. Já na porta de saída do prédio Celina hesita.

 

CELINA
Os papéis da AIMA…
sta na cima di balcão!

 

Miguel sabe que não há tempo. Pensa. Não há tempo para pensar.

 

MIGUEL
Corre daqui.
Fica tranquila.

 

Miguel apanha a cópia da chave que Celina tem nas mãos e pega Lucas pelo braço e sobem, pulando de dois em dois degraus.

 

EXT. RUA DO APARTAMENTO DE VASCO – CONT
Assim que Celina e Cléo saem Vasco abre a porta do prédio, Fica dentro, no hall à espera de Jéssica que logo entra.

 

INT. APARTAMENTO DE VASCO – DIA
Miguel e Lucas entram. Rapidamente avistam o documento. A porta está fechada. Miguel apanha os papéis. Os dois escutam vozes e passos. Vasco e Jéssica que se aproximam na escada.
Miguel não sabe o que fazer. Pensa, mesmo sem tempo. Parece não ter lugar para se esconder. Lucas irritado.
Miguel então dobra o documento e coloca-os no bolso. Ele fica de costas para a porta de entrada e começa a desafivelar o cinto, abre o zíper da calça e abaixa-a junto com a cueca.

 

MIGUEL
Abaixa.

 

LUCAS
Quê???

 

MIGUEL
Ajoelha Lucas!

 

LUCAS
Que porra é essa? Tá maluco?

 

MIGUEL
Só finge caralho!

 

Miguel acaba por forçar com a mão e coloca Lucas de joelho a sua frente.
Nesse instante a porta abre. Vasco e Jéssica entram e se deparam com o que parece: uma cena de sexo oral entre os dois homens ali.
Miguel olha para trás. Foram descobertos. Vasco sem palavras.
Miguel levanta a cueca e a calça. Lucas não sabe o que fazer e levanta.

 

MIGUEL (CONT’D)
Desculpa Vasco.
Eu posso explicar…

 

Vasco fica desconcertado. Todos se olham constrangidos.

 

VASCO
Miguel… anda cá, no
corredor, um instante.

 

Vasco abre a porta e Miguel ainda afivelando o cinto acompanha-o. A porta é fechada e ficamos com Jéssica e Lucas se olhando. Silêncio constrangedor.

 

JÉSSICA
Esquisito esse apagão, né?

 

INT. CORREDOR/APARTAMENTO DE VASCO – CONT
Vasco e Miguel estão frente a frente no corredor, ninguém por perto. Vasco certifica-se e fica com o rosto próximo de Miguel, falando em tom calmo, baixo e provocativo.

 

VASCO
Parece que tu e eu… não somos
assim tão diferentes, não é?

 

Miguel não percebe para onde aquela conversa irá.

 

VASCO (CONT’D)
Somos machos… temos esses desejos.
Eu sei bem. E olha, respeito.
Tenho um primo gay também, tudo
discreto, tá? Pode ficar tranquilo:
tu guardas um segredo meu, eu
guardo um teu. Sei como é… Bom,
então temos aqui uma sociedade,
não é meu caro? Fizeste cópia da
chave sem eu saber… usas o
apartamento pra aliviar aí o bicho…
muito bem. Eu entendo. Mesmo. Não
sou daqueles chefes malvados, não.
Mas… seguinte: se eu te pegar aqui…
não vai ficar muito bem. Não leve a
mal. Mas também não quero ver a… a
pila de ninguém, sabes? Temos que
ter códigos pra isso. Sinais. Se,
por ventura, tu estiver a usar aqui
sem eu saber… eu preciso saber.
Entende?

 

Miguel apenas observa Vasco, sem reação. Escuta o “entendimento” que o chefe está a fazer de toda a situação.

 

VASCO (CONT’D)
Cabrão, hein? Tenho respeito…
não fazia ideia que tinhas
atitude assim! Mas o apartamento
é meu. Vamos ter regras, ok?
Agora vaza daqui, que sem luz
nem net… é dar umasinha, não é?

 

Vasco dá um tapa no ombro de Miguel com um pouco mais de força. Vasco abre a porta e vê Lucas.

 

VASCO (CONT’D)
Tá tudo bem. Anda.

 

Lucas sai do quarto e vai de encontro com Miguel. Os dois descem as escadas. A porta é fechada.

 

LUCAS
Tu endoidou de vez.

 

MIGUEL
Bora achar a Dona Celina.

 

EXT. RUA PRÓXIMA DO APARTAMENTO DE VASCO – MOMEMTOS DEPOIS
Vasco e Miguel andam a olhar por todos os cantos até que finalmente avistam Celina e Cléo sentadas em um banco de praça. De longe vemos a ação.
Miguel conversa com Celina. Explica a situação. Tranquiliza‑a.
Miguel pega a chave e devolve para Celina. Celina dá um abraço apertado em Miguel.
Lucas repara que tudo que Miguel está a fazer é para ajudá‑la a maneira que é possível… mesmo que não seja uma ajuda tradicional…
Miguel vira para Lucas, os dois conversam. Lucas assente com a cabeça.
Celina e Cléo ficam sentadas no banco com todos seus pertences. Miguel fala algo para as duas, que assentam com a cabeça também. Miguel e Lucas se despedem.

 

EXT. RUAS DE LISBOA – DIA
Lucas conduzindo a mota e Miguel atrás. Miguel abraça o namorado com carinho. Os dois trocam carícias.

 

INT. APARTAMENTO DE VASCO – DIA
Vasco e Jéssica a foder. Chegam ao orgasmo em conjunto e depois deitam, relaxados na cama.

 

EXT. PRAÇA – FIM DE TARDE
Celina e Cléo com todos seus pertences. Cléo agora apoia a cabeça no colo da mãe. Celina observa seu redor e respira fundo.

 

EXT. LINHA DE SINTRA – MANHÃ
O comboio da linha de Sintra em velocidade para Lisboa.

 

INT. CALL CENTER – MANHÃ
Tudo igual ao de sempre. Miguel está a falar no mesmo tom monótono com uma cliente na linha.
Vasco entra. Todos ao redor fazem pose de comportados quando ele passa. Vasco para próximo da mesa de Miguel e entrega‑lhe a chave, dando aquela piscadela.
Assim que Vasco sai de perto apanha seu telemóvel e envia mensagem para Celina.

 

EXT. PRAÇA – MANHÃ
Celina tem um copo descartável de café em mãos, boceja, passou a noite em claro. Toma seu café enquanto Cléo termina de comer um croquete, sonolenta.
Celina vê a mensagem. Sorri. Vira o café e chama Cléo para levantarem. Pegam suas coisas e bem carregadas saem da praça.

 

INT. APARTAMENTO DE VASCO – MANHÃ
Celina e Cléo entram no apartamento e se acomodam. Celina solta o peso das malas, sorri aliviada, porém suspira.

 

INT. CALL CENTER – MANHÃ
Miguel continua na mesma posição, fazendo a mesma ação: fala com outra cliente em linha com o headset na cabeça. Seu telemóvel vibra e ele recebe uma mensagem de Celina.
INSERT detalhe da mensagem:
“Obrigadu, meu filho. Já nos entrá, tudu dretu.”
Miguel volta o olhar para o monitor. Entediado, mas com um semblante satisfeito.

 

FIM

DANILO BASTOS GODOY

Vive em Lisboa e nasceu em São Paulo, formado em escrita cinematográfica e direção de atores pelo Centro Universitário SENAC em 2011, trabalha como realizador e guionista desde então. Foi vencedor do 2º lugar do Festival GUIÕES em 2015 com a sua primeira longa-metragem de ficção escrita: “Sobrevoos”, o que transformou a própria vida e as narrativas que desenvolve numa perspetiva lusófona. Possui um trabalho autoral com curtas-metragens como “Tidy Bed”, indicada ao Prémio Casa Comum, do festival Queer Porto em 2023, que faz parte do panorama do cinema queer nacional, e “Procuro T”, que discute a crise da habitação em Portugal, esteve presente em forma de Work In Progress no Marché Du Film em Cannes 2024, estreou na Cinemateca Portuguesa e foi selecionado para a MARMOSTRA 2025. Recentemente está em pós produção de outras três curtas-metragens que discutem os temas da imigração, universo queer e dilemas sócio-culturais de estrangeiros em Portugal.

CONHECER // VIMEO