A Nossa Senhora
um argumento de
Matilde Guimarães
ilustrado por
Rosário Pinheiro
Três mulheres idosas de uma aldeia portuguesa embarcam numa missão absurda para recuperar uma estátua sagrada desaparecida, desencadeando uma série de mentiras, mal-entendidos e pequenos milagres, numa comédia dramática que explora fé, culpa e os segredos do quotidiano rural.
EXT. CAMPO DE QUEIRÃ – MANHÃ
Um carro antigo e desgastado avança aos soluços por uma estrada esguia e cheia de curvas. Ao longe, ouvem‑se os sinos da igreja, marcando a hora.
EXT. CAMPO DE QUEIRÃ – POUCO DEPOIS
Um pastor guia calmamente o seu rebanho pela estrada, sem pressas. Os sinos da igreja continuam a ecoar no silêncio da manhã.
INT. IGREJA – MANHÃ
A missa de domingo está a chegar ao fim. O PADRE MANUEL (40s) está diante da congregação a abençoá‑los.
PADRE MANUEL
O Senhor esteja convosco.
CONGREGAÇÃO
Ele está no meio de nós.
PADRE MANUEL
Que Deus Todo‑Poderoso
vos abençoe, o Pai, o
Filho e o Espírito Santo.
A congregação faz o sinal da cruz em resposta.
CONGREGAÇÃO
Amém.
PADRE MANUEL
Ide em paz.
CONGREGAÇÃO
Graças a Deus.
INT. IGREJA – ALGUNS MINUTOS DEPOIS
MARIA JOSÉ (70s) manobra estrategicamente pelos bancos da igreja, cumprimentando quem reconhece.
Chega ao nártex quando sente um toque no ombro e vira‑se.
MARIA JOSÉ vê GRAÇA (70s) e cumprimenta a amiga com dois beijos rápidos no rosto. Continuam a andar juntas.
GRAÇA
Não trouxeste o teu menino?
MARIA JOSÉ
O João levou-o
ontem pró Porto.
GRAÇA
Ah claro, vai começar
a ano escolar.
As mulheres param à entrada da igreja para continuar a conversa, deixando os fiéis passarem à saída da missa.
MARIA JOSÉ
Já está no 2.º ano.
GRAÇA
A minha Ritinha vai agora para
o ciclo. Imagina aquela pequenina
no meio da baralhada toda.
De repente, SENHOR MARTINHO (60s) sai da igreja distraído numa conversa chocando contra GRAÇA.
Trocam um breve pedido de desculpa e GRAÇA desvia-se, revelando um quadro de avisos atrás dela.
MARIA JOSÉ repara numa nova adição a este quadro. Estende o pescoço para ler um cartaz mal impresso colado por cima de outros avisos mais pequenos.
DESAPARECIDA: Estátua de Nossa Senhora, benzida pelo Papa João Paulo II.
MARIA JOSÉ olha para o cartaz atentamente, analisando‑o.
MARIA JOSÉ
Já viste isto?
MARIA JOSÉ aponta para o cartaz. GRAÇA vira‑se para o ler, a sua cara denunciando o seu choque.
GRAÇA
Eu? Não! Quem pôs isso aí?
MARIA JOSÉ procura mais informações no cartaz o nariz quase esborrachado no papel. Notando a curiosidade das mulheres, SENHOR MARTINHO aproxima-se apressadamente.
SENHOR MARTINHO
Nem me falem disso. A minha pobre
mulher estava a arrumar a casa para
o baptizado da nossa neta e pôs uma
caixa que tinha esta Nossa Senhora
à porta da nossa casa por um
segundo. Roubaram-lha. É ao que
o mundo chegou, já nem em casa
estamos seguros.
MARIA JOSÉ olha para ele como se ela própria tivesse testemunhado o roubo.
MARIA JOSÉ
É horrível! Não podemos deixar que
isto aconteça aqui. Já viu se as
câmaras do café capturaram algo?
GRAÇA
O café tem câmaras?
SENHOR MARTINHO
Sim, tentámos, mas não se vê
a nossa porta daquele ângulo.
MARIA JOSÉ
Tem que haver algo que
possamos fazer?
GRAÇA
Mas se ninguém viu o que
se passou, então já—
MARIA JOSÉ
(para Graça)
Não digas disparates, não podemos
desistir. Vamos encontrá‑la.
SENHOR MARTINHO
Por favor. A minha sogra
ofereceu‑nos esta estátua no
dia do nosso casamento. A minha
mulher acha que este roubo é um
sinal de que vai acontecer algo
terrível na aldeia. Sabem que
ela tem visões—
MARIA JOSÉ
Não, não se preocupem, vamos
descobrir quem fez isto.
(para Graça)
Vou chamar a Dolores,
ela pode ajudar‑nos.
(Volta‑se para o Senhor Martinho)
Senhor Martinho, vamos resolver isto, eu prometo.
INT. SALA DE ESTAR DE GRAÇA – MAIS TARDE NESSE DIA
MARIA JOSÉ e DOLORES (70s) estão sentadas à mesa, inquietas. GRAÇA entra na sala com dois cafés e um carioca de limão.
DOLORES
Então, a estátua desapareceu?
MARIA JOSÉ
Roubaram‑na!
DOLORES
E estamos a falar disto porque…?
MARIA JOSÉ
Bem, é inaceitável, não?
MARIA JOSÉ vira‑se para GRAÇA, procurando apoio. GRAÇA evita o olhar e brinca nervosamente com as unhas. MARIA JOSÉ pousa a mão no braço da amiga.
GRAÇA
Hã?
MARIA JOSÉ
Precisamos de sentir‑nos
seguros na nossa terra e
ajudar‑nos uns aos outros a
encontrar estes malcriados
que fazem uma coisa
inacreditável destas—
DOLORES
Bem, precisar, precisar
não precisamos.
MARIA JOSÉ continua como se a sua amiga não tivesse aberto a boca.
MARIA JOSÉ
Não roubaram só uma estátua,
roubaram uma parte da família
deles. Eles acham que estão
amaldiçoados. Temos que ajudar—
GRAÇA
NÃO CONSIGO MAIS, FUI EU!
DOLORES e MARIA JOSÉ viram-se imediatamente para a amiga. Sem saberem se está a brincar, esperam que ela esclareça. GRAÇA procura freneticamente nos seus armários cheios de relíquias religiosas. Encontra o que procura: uma estátua igualzinha à do cartaz. Ela coloca-a na mesa.
GRAÇA
Eu juro que não sabia que era
importante, nem que tinha sido
benzida. Pensei que estavam a
deitar coisas fora, eu juro na
minha vida.
Um olhar de desilusão cruza o rosto de MARIA JOSÉ. Não por causa das ações da amiga, mas porque o seu breve episódio de detective chegou ao fim.
MARIA JOSÉ
Bem, pelo menos
cumprimos a promessa.
MARIA JOSÉ tenta apanhar a estátua, mas GRAÇA é mais rápida lançando-se à mesa.
GRAÇA
Não!
MARIA JOSÉ avança. As duas mulheres lutam como duas jovens por o último vestido de festa nums descontos, ambas a tentar soltar a outra da estátua.
DOLORES
(murmurando para si)
Meu Deus.
MARIA JOSÉ
Dá‑ma!
GRAÇA
Não posso! Tu não percebes,
vão estar todos a falar disto
pela próxima década.
MARIA JOSÉ
Claro que não, nós
vamos explicar. Larga!
GRAÇA
Não! Vão chamar‑me a ladra
para o resto da minha vida.
Não posso viver assim—
Com um estrondo ensurdecedor, a estátua cai no chão, partindo‑se em dezenas de pedaços. As mulheres ficam imóveis a olhar para as peças.
DOLORES
Eu até ia sugerir que podíamos
deixá‑la fora da casa deles…
mas isto também serve.
DOLORES senta‑se, segura o café e começa a beber devagar, sem preocupações. As outras duas continuam completamente paralisadas.
MARIA JOSÉ
Não se preocupem! Podemos arranjar
uma cola, ainda dá para salvar!
GRAÇA
Ai, ai, ai meu Deus, agora vais
ter de lhes contar que fui eu
que a parti. Isto é muito pior.
GRAÇA começa a chorar dramaticamente.
MARIA JOSÉ
Graça, nós conseguimos
arranjar isto!
Se GRAÇA ouve a sua amiga não mostra nenhum sinal.
DOLORES
Ou… Compramos uma nova?
GRAÇA
(aos soluços)
Mas se formos a uma loja,
alguém vai reconhecer-nos.
DOLORES levanta-se rapidamente, caminhando em direção à porta.
DOLORES
Tenho um site que a Lurdes
me mostrou. Até foi lá que
comprei aquelas chávenas.
INT. ESCRITÓRIO DE GRAÇA – DIA
As três mulheres estão apertadas diante de um computador do século passado completamente sem palavras devido à maravilha no ecrã perante elas.
SHEIN.
DOLORES guia o cursor pela página enquanto as outras duas mulheres avaliam as estátuas no ecrã.
GRAÇA
E esta?
DOLORES
Essa é só 15 cm, a
original era mais alta.
MARIA JOSÉ
Devíamos só contar a verdade—
GRAÇA
E esta? Esta aqui é de 30 cm!
MARIA JOSÉ
Mas nem sequer deve chegar
esta semana, querem que lhes
minta sobre a Nossa Senhora?
DOLORES
Chega amanhã.
Pausa.
MARIA JOSÉ
Se ficarmos amaldiçoadas por
causa disto, eu digo ao Jesus
que foi ideia tua.
INT. SALA DA GRAÇA – MANHÃ
As três mulheres estão coladas à janela, ansiosamente a observar cada movimento na rua à procura do carteiro. GRAÇA roe nervosamente a manga.
De repente, MARIA JOSÉ vê uma moto a estacionar.
MARIA JOSÉ
Ali! Ali! Vamos!
Ela corre para abrir a porta, tropeçando a caminho do carteiro, como um cão excitado ao ver os donos.
GRAÇA
Bom dia, Fábio! Tens alguma coisa
para nós? Quer dizer, alguma coisa
para mim, claro, a Maria José e
a Dolores não moram aqui, por
isso obviamente não haveria
nada para elas.
DOLORES empurra a amiga para a calar antes que termine o seu monólogo sem fim aparente.
FÁBIO ignora os comentários das mulheres completamente e entrega‑lhe o pacote sem olhar.
FÁBIO
Bom dia.
FÁBIO vira costas e volta para a sua mota enquanto as mulheres atiram‑se para o chão abrindo o pacote nervosamente sem perder tempo.
MARIA JOSÉ abre a foto do poster original no seu telemóvel.
As mulheres semicerram os seus olhos para compararem a foto com a estátua diante delas. Idêntica.
Suspiram aliviadas simultaneamente.
DOLORES
Pronto, agora só tens de dizer que
a encontraste junto aos contentores.
Simplesmente vão pensar que alguém
a roubou e depois entrou em pânico
e deixo‑a no lixo.
A GRAÇA acena com a cabeça, a pressionar a Maria José para concordar com o plano.
MARIA JOSÉ
Mas… acham que eles vão saber
que esta não está abençoada.
DOLORES
Como é que poderiam saber?
GRAÇA
Ai não! Ela está correta, imagina
se o bebé não ficar protegido?
Seria tudo a nossa culpa!
MARIA JOSÉ
Vamos todas para o inferno
e eu nem sequer vou conhecer
o Jesus!
A DOLORES suspira, já claramente farta da conversa.
DOLORES
Pronto, e se a benzermos?
O bebé fica seguro e seguimos
com a nossa vida?
GRAÇA
E como é que vamos fazer isso?
(sussurrando) O Papa João Paulo
já cá não está.
DOLORES
Não, tu disseste que tinha que
estar abençoada. Quer dizer que
tecnicamente só precisamos de
água benta.
MARIA JOSÉ
Podemos pedir ao padre!
Ele gosta de mim!
DOLORES
(sarcasticamente)
Claro! O padre vai adorar o
nosso plano de enganar toda a
aldeia com mentiras e aldrabices.
MARIA JOSÉ
Então onde é que vamos
arranjar água benta?
A GRAÇA e a MARIA JOSÉ olham para a DOLORES, implorando por uma solução.
A DOLORES faz uma pausa, já a antecipar o protesto da suas amigas que com certeza vai seguir.
EXT. IGREJA – DIA
As três mulheres estão paradas ao lado da igreja, a observar as pessoas a sair de uma missa.
Maria José segura um saco de plástico branco, visivelmente translúcido o suficiente para se perceber o contorno da estátua de Nossa Senhora.
MARIA JOSÉ
Toni Carreira, Goucha, Júlia—
DOLORES
E agora o quê?
MARIA JOSÉ
Estou só a fazer uma lista de
todas as pessoas com quem
poderia ter sido amiga no Céu,
antes disto tudo.
DOLORES
Pelo menos agora podes tomar
um café com a Cristina.
GRAÇA
Shh. Já saíram todos,
vamos depressa!
As mulheres tentam entrar na igreja discretamente, olhando em volta para ver se alguém as está a observar.
INT. IGREJA – DIA
Dolores tira o saco das mãos de Maria José e desembrulha a estátua. As mulheres dirigem‑se à pia de água benta.
GRAÇA
Achas que é só mergulhá‑la?
Dolores interpreta isso como uma instrução e mergulha ligeiramente a estátua, retirando‑a logo de seguida.
MARIA JOSÉ
Não, não, tem que ser mais!
Submerge‑a completamente!
Mais uma vez, Dolores faz o que lhe mandam e submerge a estátua completamente.
Após alguns segundos, as mulheres reparam que a água da pia está a ficar azul.
MARIA JOSÉ (CONT’D)
Não, não, não!
MARIA JOSÉ tira rapidamente a estátua mas já é demasiado tarde, a tinta das roupas da estátua saiu completamente. As amigas ficam completamente pasmadas vendo a água benta azul.
DOLORES
Estou tão farta disto!
INT. CAFÉ – DIA
DOLORES petisca azeitonas e bebe uma cerveja. MARIA JOSÉ agarra-se ao terço, ignorando o vapor que sai do seu chá.
GRAÇA, por outro lado, fixa o olhar em qualquer pessoa que passe, diga algo ou se atreva a mexer‑se.
Um rapazinho corre alegremente por elas, sorrindo para a GRAÇA.
GRAÇA
O João sabe. Viram aquilo?
Ele sabe.
DOLORES
O João tem 6 anos, não sabe
nada, nem sabe limpar o rabo.
Graça tira uma azeitona do prato da Dolores e roe o caroço nervosamente.
Ao balcão, SENHOR ANTÓNIO (60s) e a sua mulher, DONA AMÉLIA (60s), aproximam‑se do DONO DO CAFÉ.
SENHOR ANTÓNIO
Duas Sagres.
DONA AMÉLIA
Estamos amaldiçoados e tu
estás a beber… não admira
que Deus nos esteja a castigar.
Tu meteste‑nos no Êxodo.
As três mulheres ouvem isto. GRAÇA mastiga outro caroço. MARIA JOSÉ começa a rezar em voz baixa.
DOLORES
Amélia! Diz lá o que se passa?
DONA AMÉLIA vira‑se para as mulheres, ansiosa por partilhar a novidade com quem quiser ouvir.
DONA AMÉLIA
Ai! Ainda não sabem? Fomos
amaldiçoados por Deus! Primeiro
Ele leva de volta a estátua para
o batizado e agora toda a água
benta da igreja está azul!
Pausa.
Todo o café ouve isto e começa a murmurar, alguns em pânico, outros desconfiados.
MARIA JOSÉ
(a sussurrar para Dolores)
Não foi toda a água…
DONA AMÉLIA
O quê, Maria José?
MARIA JOSÉ
Perguntei se foi mesmo toda a água.
DONA AMÉLIA
Ah, sim, toda a água… e todas
as velas deixaram de acender.
DOLORES acha estas exagerações divertidas e dá uma risadinha.
DOLORES
Aposto que o vinho também
se transformou em água.
DONA AMÉLIA
Sim! Por acaso,
ouvi dizer que sim.
A multidão no café começa a ficar mais inquieta. GRAÇA dá um pontapé por baixo da mesa a DOLORES. DOLORES ignora e acaba a sua cerveja com a maior calma.
Lá fora, ouve-se um trovão.
GRAÇA grita. O café entra em pânico.
DONA AMÉLIA (CONT’D)
Temos de fazer alguma coisa!
DOLORES
Fazer o quê?
MARIA JOSÉ
Podemos jejuar?
Para pedir perdão?
DONA AMÉLIA
Ui, isso não dá para nós…
o casamento da nossa sobrinha
é esta semana e já pagámos o buffet.
MARIA JOSÉ
Então podemos sacrificar
algo. Cordeiros?
SENHOR ANTÓNIO
(rindo-se com desdém)
Sim, isso mesmo. Já viram os preços
desses bichos hoje em dia?
DONA AMÉLIA
Tenho que chamar o Padre Manuel.
EXT. IGREJA – FIM DE TARDE
PADRE MANUEL acende um cigarro e inala lentamente. Atrás dele, o grupo de mulheres ansiosas e os aldeões reúnem‑se impacientes, à espera que o padre encontre uma solução.
A energia ansiosa não parece afetar o PADRE MANUEL, que está a levar o seu tempo.
PADRE MANUEL
Mas isso acontece. Há uns meses,
em Moçâmedes, a agua ficou vermelha
e afinal era só verniz de unhas
de uma loja chinesa.
GRAÇA puxa ansiosamente pela manga de DOLORES. Ao lado delas, MARIA JOSÉ segura o saco branco que esconde a estátua nua, ainda a pingar.
DONA AMÉLIA
Mas então e a estátua?
PADRE MANUEL continua a fumar como se estivesse sozinho.
PADRE MANUEL
Ó, as coisas desaparecem e
o Senhor Martinho também não
tem a melhor visão—
De repente, PADRE MANUEL repara no saco que MARIA JOSÉ segura, a pingar lentamente uma água com um tom suspeitamente azulado.
PADRE MANUEL (CONT’D)
Porque é que não entram
todos e rezam 5 Avé‑Marias e
3 Pais‑Nossos? Só por precaução.
O grupo apressa-se a entrar na igreja para evitar que a maldição se espalhe.
PADRE MANUEL (CONT’D)
(para as 3 mulheres)
Excepto vocês,
quero falar convosco.
PADRE MANUEL atira fora o cigarro.
INT. SACRISTIA DA IGREJA – FIM DE TARDE
As mulheres observam nervosas a sala, fingindo indiferença e inocência enquanto percorrem os olhos pelas várias relíquias religiosas usadas como decoração.
PADRE MANUEL dirige‑se a um armário, abre‑o e revira o interior. Retira algo de dentro, invisível para as mulheres, e volta para junto delas.
Até DOLORES começa a perder a sua postura dura.
PADRE MANUEL aproxima‑se.
PADRE MANUEL
O saco, se faz favor.
As mulheres olham freneticamente umas para as outras, tentando comunicar telepaticamente sobre o que devem fazer.
GRAÇA
Isto são só restos do almoço.
Se quiser faço‑lhe o jantar,
ou melhor! Pode vir a minha casa,
eu preparo‑nos um jantarinho.
MARIA JOSÉ acena em concordância. DOLORES fica espantada com a péssima forma como as amigas mentem.
PADRE MANUEL finalmente revela o que tem na mão: uma simples caneta dourada.
PADRE MANUEL
A Nossa Senhora, se faz favor.
Intrigada, DOLORES empurra a amiga para que entregue o saco molhado ao padre.
O PADRE MANUEL pega nele, retirando a estátua lá de dentro e examinando as roupas uma vez azuis.
PADRE MANUEL (CONT’D)
Estão prestes a ver um milagre.
As mulheres ficam imóveis, atentas aos próximos gestos do padre. Ele pega na caneta e começa a adornar as vestes brancas com detalhes dourados.
As mulheres estão demasiado confusas para fazer alguma pergunta.
EXT. IGREJA – FIM DE TARDE
O grupo de aldeões supersticiosos sai da igreja, muitos ainda agarrados a terços, Bíblias e murmurando orações. As três amigas juntam‑se agora discretamente ao fundo do grupo, para não levantar suspeitas.
DONA AMÉLIA pára de repente, como se travasse um carro num sinal vermelho inesperado.
DONA AMÉLIA
Ai meu Deus! Não posso acreditar!
O seu anúncio dramático é contagiante, fazendo com que o grupo também exclame. Confusas, as três mulheres tentam espreitar discretamente o motivo de tanta agitação.
No passeio, mesmo em frente à igreja, está a estátua falsificada, ainda branca, mas agora com detalhes dourados na roupa.
DONA AMÉLIA corre a pegá‑la.
DONA AMÉLIA (CONT’D)
Claro! Não estamos amaldiçoados!
É a Nossa Senhora de Fátima!
Ela está a dar‑nos um sinal
de que está connosco!
GRAÇA e MARIA JOSÉ ficam de boca aberta, sem acreditar na sua sorte nem na ingenuidade à sua volta. DOLORES ri‑se discretamente pelo mesmo motivo.
Nada disto é notado pelo grupo, que se amontoa em volta do aparente milagre que acabou de acontecer diante dos seus olhos.
Quase como se tivesse sido chamado, PADRE MANUEL aproxima‑se do grupo.
PADRE MANUEL
Então, Dona Amélia. Está tudo bem?
A mulher não responde, ainda maravilhada com a surpreendente resolução da sua missão.
Com alívio imediato, GRAÇA e MARIA JOSÉ juntam‑se à celebração, festejando o seu próprio milagre.
FIM
MATILDE GUIMARÃES
Matilde Guimarães é uma cineasta portuguesa natural de Viseu, criada em Londres, conhecida por combinar comédia com uma perspetiva social única, revelando o humor no quotidiano. Começou a sua trajetória criativa como atriz antes de se formar na BFI Film Academy e na London Film Academy, tendo depois obtido um BA em Film, Television and Digital Production na Royal Holloway, University of London. Matilde tem contribuído para longas-metragens de empresas como a Netflix, e Nossa Senhora marca o seu primeiro projeto a solo fora do ambiente académico, um projeto que começou a desenvolver no programa de escrita do National Theatre do Reino Unido. Foi também selecionada para o prestigiado programa de mentoria BAFTA x BFI, onde foi orientada pela argumentista e atriz Meg Salter. A sua experiência em escrita abrange teatro, cinema, jornais e revistas, incluindo a co-escrita de um espetáculo de sketch comedy apresentado no Soho Theatre, em Londres. Curiosidade: o seu primeiro trabalho publicado foi aos oito anos, na secção de piadas da Visão Júnior, prova de que a comédia sempre fez parte da sua vida.
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